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Cocô e vaso sanitário podem tornar Bill Gates bilionário, mais uma vez!

Bill Gates apresenta ao mundo novo vaso onde fazer cocô.

Bill Gates, que ficou bilionário com a computação e popularização do computador, poderá repetir a dose e tornar a ser o homem mais rico do mundo com o cocô; não só dele, porém de todo o mundo, que fique bem claro.

É o que se deduz de surpreendente notícia, que vem da China, mais especificamente de uma feira, onde se apresentam grandes novidades tecnológicas. Segundo as notícias, o fundador da Microsoft, depois de anos de pesquisas bancadas por sua fundação, apresentou um vaso sanitário que dispensa água e funciona sem necessidade da rede de esgotos.

Ele processa o cocô a seco e o transforma em adubo, não se sabe ainda se pronto e acabado para o emprego no plantio.

Embora visto como algo trivial, o vaso sanitário é uma das mais, se não a mais significativa das invenções humanas. Avião, veículos terrestres e marítimos, televisão, telefone, computador, internet, formam um conjunto de maravilhas do qual se fica dependente, no dia-a-dia, bastando se iniciar no seu uso.

Entretanto, por mais interessante, intrigante e necessária seja cada uma delas, a falta de uma dessas maravilhas não afeta tanto o conforto, a higiene e, especialmente a saúde de uma pessoa, quanto a afeta a falta de uma instalação sanitária.

Pode-se dizer que o vaso sanitário é o marco da civilização, tendo o Homem saído do estado semisselvagem quando passou a usar o vaso, inventado na Inglaterra do século XVI. Basta esquecer tudo o que passou a rodear a vida humana, nos últimos duzentos anos, e se concentrar na ausência do vaso e consequente esgotamento, quando uma pessoa necessitava descarregar seus intestinos.

Era desconfortável, humilhante e perigoso à saúde, estendendo-se esses fatores às pessoas encarregadas do destino final desse material, coletado nas residências das grandes cidades. Em cidades de menor porte e na área rural, a situação não era muito diferente, podendo ainda o processo se desenvolver, diretamente, na natureza.

Imagine-se o grau de risco à saúde, e, dados estatísticos o confirmam com a grande incidência de doenças contagiosas e consequentes mortes, em decorrência da má higiene. Registre-se que esse quadro não fica muito longe, no tempo, em regiões, atualmente dotadas de saneamento básico, mas, nas chamadas periferias das grandes cidades e interior menos desenvolvido do território brasileiro, pouca coisa mudou.

O anúncio feito por Bill Gates corresponde a uma reinvenção do vaso sanitário e deveria causar relevante impacto, pelo que representa (a depender de sua viabilidade econômica) na solução dos problemas de saneamento básico, preservação do meio ambiente, economia hídrica e outras questões a afetar o quotidiano da vida humana.

Entretanto, o anúncio feito pela mídia foi seco, sem qualquer comentário, ao contrário do que se faz com relação a qualquer bobagem dita por alguma celebridade, um jogador de futebol, por exemplo. O assunto mereceria mais espaço e considerações em torno do que representa para a vida humana, ainda que nada se saiba sobre sua aplicação imediata.

Contudo, fruto de pesquisas autorizadas e bancadas por empresário do porte de Bill Gates, que se sabe bilionário e, ao mesmo tempo, dotado de inteligência privilegiada e de sensibilidade com relação aos destinos da humanidade, pode-se concluir não ter apresentado ao público nenhuma futilidade.

Altamente dispendiosa, pelo que representa em trabalho de engenharia, emprego de mão-de-obra e de material, a rede de esgotamento sanitário é o grande tabu  dos políticos, especialmente dos prefeitos, aos cabe a implantação e manutenção do serviço.

É que, cobertas por terra e desprovidas de visibilidade diante do público, tais obras, por si só, não fazem propaganda, o que as torna sem interesse político. Politicamente, este é o grande impacto, pois o fantasma do esgoto sanitário sai do cenário administrativo municipal, criando-se, é verdade, outras necessidades, pois haverá que dar destino final ao adubo ou pré-adubo, produzido em cada instalação sanitária.

Isso ensejará o surgimento de outras atividades, da coleta ao destino final, que poderá ser usina de processamento do adubo a ser instalada em cada cidade ou região. A partir da usina pode surgir outro grande problema, a substituir a preocupação com a poluição.

Ainda que não tenhamos dados concretos para fazer esta afirmação, crê-se que não haverá demanda suficiente para consumir toda a produção, e, o adubo não será, facilmente, exportável. Países ricos poderão tê-lo em abundância, e, aos pobres seria injusta e desumana a exportação!

As águas poderão ficar mais limpas, mas grandes espaços serão necessários para a estocagem do novo produto. É o grande problema da civilização humana! Conserta-se de um lado, quebra-se do outro!

Como se trata de equipamento sofisticado, porém de grande utilidade à vida de ricos e pobres, o novo vaso terá que adequar seu custo à realidade dos mais carentes, ou estes deverão ser subsidiados pelo poder público (vem ai a bolsa privada!), para que não fiquem excluídos do benefício higiênico.

Para que seja realmente útil à coletividade, o novo vaso deverá ser instalado do palacete ao mais humilde dos barracos; perdendo sua utilidade se assim não for.

Embora haja outros poluentes a afetar os cursos d’água, o desaparecimento gradativo das redes de esgoto dará grande ganho de qualidade às águas, fazendo desaparecer do olfato a fedentina própria do esgoto a céu aberto.

Quando tem boa vontade, o Homem pode criar quase que o impossível, mas a aplicação do criado pode depender de outras fontes, nem sempre com a mesma boa vontade!

Bandidos desejam posição de destaque

Ao se levar em conta comportamento diante da criminalidade, percebe-se que a sociedade está acuada, encostada no muro e de cócoras, incapaz de reagir ante a sanha dos bandidos ou inimigos da lei.

Bandidos investem contra a vítima, tiram desta tudo o que tem, incluindo-se dignidade e mesmo a vida, mas os que devem tratar do assunto diante do público pisam em ovos ao se referir aos agentes do crime.

Não importam as ofensas, de todos os gêneros, às vítimas, incluindo-se possível desamparo da família com subtração de quem lhe dava sustento.

Os bandidos têm, ao seu lado, defensores dos direitos humanos, mas esses mesmos direitos não são reconhecidos em relação às vítimas. E essa diferenciação se nota até mesmo na notícia do crime.

Não faz muito tempo, bandidos invadiram residência, dominaram a família, excetuando-se menina de dez anos de idade que os assaltantes não localizaram a tempo de lhe pôr as mãos.

Em segurança e de posse de celular, a garota ligou para o vizinho e este chamou a polícia. Policiais militares chegaram a tempo de flagrar os assaltantes em ação, dominá-los e prender.

No dia seguinte, nota em jornal informava sobre o fato, mas tratando os malfeitores como suspeitos a cometer suposto assalto. Indivíduos suspeitos? Suposto assalto?

Tenha dó ó cara pálida! Os bandidos foram pegos dentro da casa invadida, cujos residentes foram libertados exclusivamente pela pronta ação policial, desencadeada por iniciativa da menina.

A família foi molestada, intimidada, agredida em sua intimidade, e, só não perdeu pertences e valores, quiçá até a vida, para os bandidos, porque a polícia chegou a tempo de impedir a consumação do roubo.

Se os indivíduos eram suspeitos de ter cometido suposto assalto, então suposta família, supostamente, residia naquela casa suposta casa e a polícia, supostamente, compareceu ao local e supostamente prendeu os supostos bandidos. O suposto jornal, por sua vez, deu a suposta nota “jornalística”!

Foi tudo ficção – para o jornal, bem entendido – porque para aquela família foi tudo real e deve ter restado, como sequela, o trauma por tamanha violência.

Não havendo provas que apontem o agente do crime, o envolvido é apenas suspeito e contra ele ninguém pode se levantar, enquanto provas não se apresentem.

Havendo provas materiais e/ou testemunhais contra o agente do crime, não se entende o porquê de qualificá-lo suspeito, passando a criminoso somente depois de julgado e condenado.

A condição de perdedora, da vítima, não se consuma depois de condenado seu algoz! Desde o momento do crime, a vítima fica com todas as perdas imagináveis, e também inimagináveis porque há coisas que só a vítima pode aquilatar.

Quem, de fora, olha o quadro, só consegue fazer comparações entre fatores comuns a todos, mas cada pessoa tem seu mundo todo particular em nada igual ao de outra.

E a vítima tem esse mundo violado, no momento em que alguém lhe tira a segurança, a paz e a dignidade, independente de se lhe subtrair algum bem, ou não.

A vítima sempre perde, muitas vezes fica ao abandono, por vezes incapacitada para o trabalho, enquanto ao criminoso se reconhecem todos os direitos, ditos humanos.

A bandidagem anda tão segura de si que seus expoentes dão entrevistas, como se pessoas “vips” fossem, exigem privilégios, dirigem seus “negócios”, de dentro do presídio quando eventualmente presos, passam aos olhos dos mais simples como benfeitores das comunidades e, pelo visto, exigem tratamento que não os discrimine diante da sociedade. São apenas suspeitos de supostos crimes!

A ousadia já chegou ao cúmulo de processo do ladrão contra sua vítima. Comerciante, depois de sofrer cerca de uma dezena de assaltos em sua padaria, foi surpreendido, certa manhã, ao chegar ao estabelecimento.

Um ladrão estava a fazer ameaças diante do caixa. Tendo o bandido de costas para si, o comerciante não teve dúvidas. Atracou-se com ele, iniciando uma briga que foi engrossada com a adesão de testemunhas, até então inertes diante do fato. Depois de muito lhe bater, amarraram-no e o entregaram à polícia.

Algum tempo depois, outra surpresa para o comerciante. Foi intimado a comparecer ao Fórum, onde estava sendo processado.

Sabe por quem e por quê? Pelo ladrão azarado, que o acusava de atentado à sua “dignidade”, quando foi xingado e surrado em público.

Isso foi o cúmulo da ousadia do criminoso que, frustrado em suas malévolas intenções, tentou virar o rumo da história, contra sua quase vítima no assalto fracassado.

A ousadia foi além do imaginável, porque ele se valeu das vias legais, só não conseguindo seu intento porque o juiz não era da mesma laia do seu advogado.

Também o conceito de violência tem mudado, outro sinal de fragilidade da sociedade diante do crime.

Tanto vítima quanto imprensa, especialmente nos casos de sequestro, informam não ter havido violência, quando o bandido não bate ou fere a vítima.

E o ato do sequestro em si não é violência? Para que ela se consuma há necessidade de sangue derramado? Algumas vítimas chegam a dizer que foram bem tratadas!

Ora, faça-me o favor! Esse comportamento, que demonstra perda da noção de dignidade por parte da vítima, é a “atenuante” de que o bandido precisa para se safar e continuar na prática do crime.

Com perguntas capciosas alguns profissionais da imprensa ainda induzem a vítima a proteger seus algozes: – houve violência? –  bateram em você? – você foi maltratado?

São perguntas hipócritas, cretinas, que não merecem respostas, pois constituem mais uma violência contra a vítima! O susto e o ato de obrigar a vítima a fazer o que não quer já são violências imperdoáveis! Quer-se mais o quê?

E o pior é quando a vítima, por medo ou comodismo, deixa de registrar a ocorrência. Aí está o prêmio máximo dado pela sociedade aos agentes do crime.

O indivíduo, ao deixar de registrar junto à polícia sua condição de vítima da criminalidade, renuncia à sua dignidade de cidadão, assume cumplicidade com o criminoso (ainda que inconsciente), dá carta branca aos bandidos e contribui para maior fragilização da sociedade.

Há que desbanalizar o crime no seio da sociedade e na mente das pessoas, saindo do acuamento para a posição de ataque à criminalidade!

 

Preconceito: atire a primeira pedra quem não o tiver!

 

Uma das facetas mais combatidas do comportamento humano é o preconceito. De raça, religião, nacionalidade, nível sócio-econômico ou qualquer outro rótulo, o preconceito separa, divide e subtrai da sociedade humana muito do que ele poderia ser como fraternidade.

Mas, ele é fator inerente à condição humana. Cada indivíduo, desde que consciente de seu lugar dentro da espécie, é marcado com uma quota de preconceito. Mentiroso é aquele que diz não ter preconceitos!

Quem não tem preconceitos, que atire a primeira pedra! Todos nós os temos, em maior ou menor escala. O que nos diferencia uns dos outros é a maneira de lidar com o fator.

Temos preconceito até sem explicação lógica, se não analisarmos o caso à luz dos fenômenos do subconsciente. Quem nunca teve uma antipatia gratuita, sem explicação, em relação a uma pessoa, apenas conhecida na rua, às vezes sem sequer saber-lhe o nome?

Costumamos até afirmar em círculos mais íntimos: “não vou com a cara daquele sujeito”. Se nos cobram o porquê, não sabemos responder. E assim como no plano individual, no coletivo o preconceito se faz presente também.

O processo da industrialização, que levou grande parte da população do campo e das pequenas cidades para as metrópoles, criou dois tipos de cidadãos na relação com os demais: o que não deu certo e foi morar na favela e o que se deu bem ou quase bem e se instalou em prédios de apartamentos, em condomínios de luxo, etc.

Da favela e do favelado nem é preciso dizer que, em termos coletivos, são os maiores alvos do preconceito urbano. Segundo mentalidade corrente é na favela que mora o bandido, e, cidadão que revela ser morador de favela já tem contra si noventa por cento de desconfiança em relação a outro residente em bairro urbanizado.

O combate ao tráfico de drogas centraliza-se nas favelas, mas os verdadeiros donos do tráfico nem são conhecidos, ou se finge que não são. Residem em locais acima de qualquer suspeita e frequentam as altas rodas.

Mas o preconceito do qual queremos nos ocupar no momento prende-se a diferenças nos modos de vida entre as grandes e as pequenas cidades, sendo estas vistas muitas vezes com desdém por parte da população encaixotada nos altos prédios de apartamentos.

Com o tempo e a aproximação proporcionada pelos modernos meios de comunicação, os rótulos “caipira”, “atrasado”, “do interior”, aplicados ao habitante de pequenas cidades vão ficando para trás, mas, em certo aspecto, o preconceito continua a rebaixá-la na avaliação feita pelo cidadão do asfalto e ar condicionado.

Com a queda da qualidade de vida nos grandes centros, o retomo às pequenas e médias cidades consta do projeto de muitos, mas um “grilinho” não deixa de cantar em seus ouvidos: “a vida em cidade pequena é

Bandido se esconde na prática do crime e escondido da sociedade pelo pelo sistema

mais tranquila; pena é que haja tanta fofoca”.

A assertiva não deixa de ser verdadeira, porém encerra injustiça contra as pequenas comunidades. O encaixotado em apartamento gaba-se de nem conhecer seu vizinho ao lado.

E isso também é verdade. Mas, daí dizer que fofoca é próprio da vila, da periferia e da cidade pequena, ele esconde o próprio rabo e pisa no alheio.

Também nos prédios de apartamento existem fofocas. E, pior, sem que se saibam pelo menos os nomes das vítimas. No lugar dos nomes, números dos respectivos apartamentos são sujeitos dos comentários maldosos que circulam nos corredores e elevadores.

As mesmas fofocas, ouvidas em outros locais, circulam nos prédio mais ou menos assim: “aquela sirigaita do 506 vai se casar, o que provoca a pergunta “contra quem?”; ou, “aquele coitado do 304 ainda não sentiu o que lhe nasce na testa”; ou ainda, “já viu o carro novo da viúva do 602? A pensão do falecido mal dá para ela comer. Tem um mistério ali”; “o morador do 708 parece estar envolvido em algo sério, pois dizem que o oficial de Justiça já esteve lá várias vezes”. Felizmente, aqui o ouvinte da fofoca rebate com a observação: “o tal oficial de Justiça é sobrinho da mulher que mora ali”.

Não adianta insistir em diferenças desse tipo. Os mesmos defeitos “de origem” unem ou separam os homens, não importa a condição social ou o local escolhido para morar.

 

Baba-se pelo estrangeiro e faz papel de idiota

Brasileiro tem verdadeira obsessão por tudo que se diz estrangeiro e importado. Basta o “cara” enrolar um pouco a língua e, logo, tem perto de si, cheios de atenção e salamaleques, patrícios e patrícias nossos que, aos mais comuns dos mortais tupiniquins, não se dignam sequer lançar os olhos.

 

Parece até que o gringo é ser de diferente espécie, tal  a bajulação que lhe é dirigida. Mas, o curioso é que enquanto em seu país de origem, o gringo está sempre levando a culpa por tudo de ruim que aqui acontece, desde a elevação do preço do petróleo até as inclemências do clima.

 

A causa das enchentes e das secas já foi debitada aos testes nucleares e à corrida espacial. Depois criaram o “El Nino”; este, filho do Mercosul!

 

Entretanto, é na área cultural e na comercial que a fixação pelo estrangeiro mais se faz notar, desbancando o nacional, mesmo que superior em qualidade e bom gosto. Qualquer baboseira produzida lá fora  é imediatamente  seguida ou copiada, chegando-se  ao ridículo de a maioria nem saber o que gritam as letras das músicas importadas, e o que ostentam roupas impressas com mensagens em língua estranha.

 

Produtos lançados no mercado com a etiqueta “made in …” (de preferência in USA) são considerados o suprassumo. Essa obsessão boba e cara leva muita gente  a fazer papel de idiota em viagens pelo exterior. No meio dos trecos estrangeiros acabam trazendo, como tais, produtos por nós exportados.

 

Mesmo que não tenha nenhuma predileção por produtos estrangeiros, de consequências advindas da curiosidade ninguém escapa. E foi assim que acabei por sofrer tremenda decepção. Não foi nenhuma novidade tecnológica, roupa, ou outro objeto fabricado por mãos humanas estrangeiras, mas, uma fruta; uma fruta estranha aos nossos pomares.

 

Foi quando se popularizava a fruta kiwi. Ouvira falar do (ou da?) kiwi como se fosse uma das frutas mais saborosas. Quando conheci a novidade, seu aspecto já me fez diminuir o interesse.

 

Kiwi – questão de gosto não se discute!

A coisa mais parece uma batata peluda, pobre em atrativos como cor e brilho, tão comuns às mais prosaicas das frutas nacionais. Fatiada em rodelas, é arremedo de tomate verde enrustido. Provei e não gostei.

 

Não captei o sabor tão decantado por terceiros, o que me fez lembrar os que, mesmo não entendendo bulhufas do que têm diante dos olhos, tecem rasgados elogios a obra de arte assinada por figurão da área.

Achei a fruta carente dos predicados que lhe atribuem, mas gosto não se discute. Por outro lado, que se pode esperar de fruta cujo nome, com duas letras estrangeiras pouco usadas em nossa língua, para ser pronunciado, quase de boca fechada, há que se fazer biquinho? Até parece palavra obscena a ser dita em sussurro, para que não seja ouvida pela madre superiora ao lado!

 

Nossas frutas têm nomes mais simpáticos, pronunciados com a boca bem aberta para que todos ouçam: banana, abacate, abacaxi, pitanga, araçá, goiaba, gabiroba (ainda existe?), jabuticaba, pitanga, manga… Que tal u’a manga saboreada sem medo de se lambuzar com o amarelo de suas entranhas?

E a goiaba? Mesmo com bicho, goiaba é! O araçá e a gabiroba já foram pretexto para alegres excursões vespertinas ao campo, no tempo ainda sem televisão.

 

As duas frutinhas caboclas, embora distantes d’outras mais nobres e, por isso, desconhecidas dos “urbanóides”, merecem citação pelo doce sabor. E tem mais. Abacate vem do abacateiro, árvore frondosa; banana vem da bananeira, possante leque dos nossos quintais.

E kiwi, vem do quê? Para não dizer que não me desperta nenhuma simpatia, pelo menos o som da palavra lembra-me o apito da “Maria Fumaça” …  já tão distante!…

 

 

Emagrecimento pode ser conseguido mediante qualidade e disciplina na alimentação.

Comida inadequada e em excesso diz não ao emagrecimento

Para gáudio da indústria do “milagre”, formada por produtores de  “medicamentos” duvidosos  e  proprietários de academias de ginástica, a pressão exercida por conceitos de estética do corpo, associada a noções de saúde, tem levado muita gente à obsessão pelo       emagrecimento.

É sabido que, em alguns casos, a obesidade é própria da natureza do indivíduo e, por isso, tornam-se infrutíferas as tentativas de redução do peso, correndo riscos de desequilíbrios na saúde os que tentam forçar a barra, dando ouvidos a tanta propaganda pró-dietas e produtos ditos agentes de emagrecimento.

Disciplina na alimentação + exercícios ao livre = corpo em equilíbrio

É sabido que, em alguns casos, a obesidade é própria da natureza do indivíduo e, por isso, tornam-se infrutíferas as tentativas    de redução do peso, correndo riscos de desequilíbrios na saúde os que tentam forçar a barra, dando ouvidos a tanta propaganda pró-dietas e produtos ditos agentes de emagrecimento.

Durante o “tratamento”,  o corpo  cede ao emagrecimento, no padrão aceitável pela moda. A conta bancária é também reduzida na mesma proporção. Mas basta suspender a dieta ou a ingestão do produto para tudo voltar ao que era antes.

E aí bate o desespero no candidato – na maioria das vezes, candidata – ao emagrecimento, ao saber que sua obesidade não se enquadra naqueles casos resolvíveis, nem à custa de muito sacrifício. O excesso de peso, até determinado limite, é próprio de sua natureza.

Cabe-lhe buscar orientação profissional, para descobrir o seu limite e com este conviver, sem mais complexos. Não adianta querer ser aquilo que a vaidade pede, mas a natureza não aceita.

Há, entretanto a obesidade calcada em causas cujo controle o indivíduo pode exercer, desde que queira e se disponha. Em grande parte dos casos, a causa está nos hábitos alimentares.

O excesso de comida, a ingestão de alimentos altamente calóricos em proporção inversa à pratica de atividade física, a falta de disciplina na alimentação e outros fatores determinam a extrapolação dos limites no peso, para grande parte das pessoas, que buscam o caminho do emagrecimento.

E, para as pessoas cuja obesidade tem como causa principal o excesso de comida, bastaria uma alteração nos modos como as refeições são feitas, para que melhoria se processasse.

Exercícios físicos dizem sim ao emagrecimento

O ato de alimentar-se é induzido, primeiramente, pelo apetite e, em seguida, pelo prazer que o alimento nos proporciona ao ser colocado na boca. Note-se que esse prazer só é sentido enquanto o alimento está na boca, cessando completamente quando ingerido, ou seja, quando passa da boca para o estômago.

O tempo de permanência da comida na boca, para o ato da mastigação, é que faz a diferença entre os que comem equilibradamente e os que o fazem em demasia.

Sabendo-se que o prazer está na boca, quem mastiga bem o alimento, conserva-o por mais tempo em mastigação e, em consequência, satisfaz o prazer do paladar com menor quantidade de comida.

Não mastigando o suficiente, quantidade maior de alimento é necessária para que o prazer seja satisfeito, sobretudo quando ele é particularmente mais saboroso.

O prazer que sentimos ao comer não é um fim em si mesmo, como pensam os gulosos, mas um dos meios que a natureza usa para forçar-nos a tomar alimento. Se o prazer proporcionado pelo paladar não existisse,  morreríamos com pouco tempo de vida.

Mas a sua satisfação baseada em maior volume de alimento provoca desequilíbrios, entre os quais a obesidade, combatida de forma equivocada. 

 O emagrecimento, que tentam conseguir com o uso de produtos anunciados pela televisão ou com excesso de exercícios repetitivos nas academias, pode ser alcançado com disciplina nos modos de se alimentar.

Um dos caminhos a seguir é dar-se tranquilidade para desfrutar o momento sagrado da refeição, consciente de que o prazer do alimento é sentido na boca, e não no estômago, razão pela qual mais tempo ele deve ali permanecer antes de seguir seu curso no processo de transformação em energia vital.

Quando alguém procura soluções em outrem, deixando de lado seus próprios recursos, torna-se escravo de interesses estranhos.

 

 

 

Animal raro e interessante, a lagarta luminosa vista no município de Ouro Preto

                        Esta não é a luminosa

Nada como sugar dos canais Discovery Channel e Animal Planet conhecimentos relativos às maravilhas, que a natureza nos oferece, nas horas em que nada nos ocupa a não ser o nada fazer.

Em momentos de puro ócio – considerando que a passividade bem dosada é também importante na vida – saber e conhecer as mais recentes descobertas em campos como a biologia, por exemplo, pode ser interessante forma de descanso, sem que esteja completamente à toa.

Foi numa dessas sessões de conhecimento sobre comportamento animal, espécies estranhas e esquisitas, que dei retrocesso na memória, mergulhando na infância, lá pelos cinco ou seis anos de idade.

Antes de prosseguir com o relato, visualizo sorrisos zombeteiros dos que consideram impossível guardar lembranças de tão tenra idade.

Muitos não se lembram mesmo – há políticos, por exemplo, que não se lembram do que disseram no dia anterior -, mas isso não invalida o que outros contam sobre suas lembranças mais antigas, quando ainda nos primeiros contatos com o mundo exterior, especialmente se incluído o mundo animal..

Tenho lembranças esparsas de quando tinha apenas dois anos de vida.

Como já dito, tinha cinco ou seis anos, quando papai levou a família para morar nas imediações da antiga estação ferroviária, Dom Bosco.

Ele trabalhava na Enrico Guarneri, que explorava a jazida de mármore na localidade do Cúmbi, e, a mudança lhe facilitaria em muito, pois, para chegar ao trabalho levantava-se diariamente às três horas da manhã, para percorrer de dez a quatorze quilômetros, a pé, dependendo do ponto onde estava, pois era integrante da turma de manutenção de estradas da empresa.

Teve muita experiência desagradável, quando algum animal estranho lhe surgia à frente ou cruzava o caminho.

Fomos morar em rancho coberto de sapé, levantado algo em torno de duzentos metros afastado da margem direita da estrada entre Dom Bosco e Cúmbi.

Nessa época já garatujava as primeiras letras, na lousa portátil de ardósia, e lia as primeiras palavras na cartilha “a e i o u”, ensinado pela mamãe, que ainda assava biscoitos com formato de todas as letras do alfabeto, para que eu as assimilasse mais facilmente.

Eu participava também do trabalho de dar-lhes forma.

O rancho era bastante rudimentar, salvando-se apenas o espaço, mais que suficiente, e o quintal a perder de vista com direito a muita vida animal e regato de águas cristalinas.

Dentro de casa, de vez em quando, sentiam-se cócegas nas solas dos pés, provocadas por minhocuçus, que rompiam o mal batido chão de terra.

Certo dia, no lusco-fusco, ao anoitecer, vi no chão algo como argola brilhante. Imaginei tratar-se de broche, que a mamãe tivesse perdido e me abaixei para apanhá-lo.

Pequei e soltei imediatamente, pois era ser vivo, um animal; lagarta não maior que cinco centímetros.

Largada no chão, ela se pôs em movimento e então pude observar como era interessante a lagartinha no escuro. Em cada extremidade havia uma luz vermelha e, ao longo do corpo, nos dois lados, luzes brancas. Lembrava um trenzinho à noite.

No momento, minha consciência infantil desejou que aquilo fosse brinquedo, mas deixei o bichinho tomar seu rumo e nem vi onde o animal se meteu.

Curiosamente e ao contrário da tendência infantil de apregoar novidades e descobertas, também não falei com ninguém sobre aquela experiência.

Por pouco tempo o rancho foi nossa morada, pois, ao entrar o período chuvoso, constatou-se que a cobertura não impedia a água de entrar, alagar e transformar o chão em barro.

Voltamos para mesma casa de onde havíamos saído, em Cachoeira.

O segredo da lagarta luminosa continuou comigo por cerca de 65 anos e, somente então, em ocasiões oportunas, passei a comentar com algumas pessoas. Nunca ouvi de outrem, ou vi em livros, referências a essa espécie de lagarta.

Com o advento da internet, por diversas vezes, pesquisei e nada encontrei, até que, passado algum tempo, acessei referência registrada pelo biólogo Pedro Gomes, sobre ocorrência nas praias de Ilha Grande, região da Costa Verde, Angra dos Reis-RJ.

Entretanto, as lagartinhas da Ilha Grande seriam menores, medindo até um centímetro e meio e, segundo descrição do biólogo, a luz ao longo do corpo é verde claro.

Pedro Gomes acrescenta que, na qualidade de biólogo, pesquisou e não encontrou relato sobre a lagarta bicolor.

Se a lagarta ainda ocorre na região de Dom Bosco, mais de setenta anos depois de eu ter visto um exemplar, é mais um animal raríssimo a viver em território ouro-pretano, não muito longe do Vale do Tripui, onde ocorre o famoso peripatus acacioi.

traquinagens de garotos e a galinha 14 bis

Estava eu a poucos passos dos dois garotos – ambos com algo em torno de oito anos – em animada conversa. Contudo, não se podia ouvir bem o que diziam, em razão do barulho ensurdecedor de carros, caminhões e carretas a deslizar pela rodovia.

Em dado momento, do garoto de voz mais firme, ouvi: – mas, galinha não voa! O outro, parecendo não concordar, balançava o corpo e com as mãos fazia gestos, possivelmente a mostrar como ele vira a penosa dominar o ar.

Ao que seu companheiro sacudia a cabeça e repetia: galinha não voa, não voa e pronto!

Pensei em me achegar e tomar parte da conversa, ouvir o relato do primeiro garoto, mas reconsiderei a ideia, optando pela não intervenção no colóquio infantil.

Embora não tivesse ouvido tudo, pude entender que um garoto defendia ponto de vista com base em experiência exercida, enquanto outro o rejeitava só porque nunca tivera a mesma experiência e, talvez, sua mente já escapasse do universo infantil, onde imaginação e fantasia não sofrem censuras.

De fato, galinha não voa. Quando muito, usa as asas para saltar sobre cercas e muros ou para não se esborrachar no chão. Mas, o insólito, por vezes, acontece.

E, assim sendo, a conversa dos garotos me levou à fase de transição entre infância e adolescência, quando então os brinquedos convencionais não mais satisfaziam e o espírito inquieto buscava aventuras e experimentos ousados, ainda que sob riscos de acidentes com sérias consequências.

Naquela época, viagem espacial ainda pertencia ao mundo dos sonhos de malucos, não havia saltado das páginas em quadrinhos, cujos conteúdos eram absorvidos com avidez, para abrir mais a imaginação infanto-juvenil.

Na área prática, tudo que levasse a pequenas explosões e deslocamento de objetos era experimentado, quando olhos vigilantes não estavam sobre nós, garotos imprevisíveis nas travessuras.

Uma das brincadeiras consistia em encher pequenos vidros com água, arrolhá-los bem e os colocar sobre a chapa do fogão (fogão a gás também não havia), que ficava acesso durante todo o dia. O resultado era o estampido, o lançamento da rolha ao alto e o vapor a dominar o ambiente.

Certo dia, ao por os olhos em alguns “rodos” (“rodo” era abreviatura popular da marca Rodouro) vazios de lança-perfume, então apenas brinquedo carnavalesco, não usado como droga fora de estreito círculo mais atrevido, vislumbrei possibilidade de avançar além das “experiências” com os vidros na chapa quente.

Nossa casa, dotada de grande quintal, ficava logo atrás da capela de Santo Antônio e outro garoto, companheiro de traquinagens, morava ao lado. Mostrei a ele o “rodo” e expliquei o que pretendia fazer: encher com água e aquecê-lo em pequena fogueira.

Retirada a válvula do apetrecho de alumínio, tivemos grande dificuldade em fazer o enchimento, pois não queríamos alargar muito o diminuto furo original. Para vedar, utilizamos caule verde, bem firme.

Acesa a fogueira, ao lado da capela, o “rodo” foi lá colocado e aguardamos o resultado. Depois de alguns minutos, ouviu-se chiado alto e forte como o de rojão de vara.

O tubo de alumínio lançou-se ao ar, impelido pelo empuxo dado pelo vapor expelido, subiu alguns metros, depois desceu e, em zigzag, sobrevoou a área do “experimento”, obrigando-nos a abaixar para não sermos atingidos, antes de se chocar contra a parede de uma das casas.

A fogueira, parcialmente apagada, espalhara cinza por todos os lados e às janelas das casas muitos rostos se viam em franca reprovação àquela travessura.

Entre assustados e satisfeitos com a brincadeira, eu o garoto parceiro estávamos sentados na grama a alguns metros da fogueira, quando outro barulho, às nossas costas, nos pôs em sobressalto.

Uma galinha, a gritar como só fazem as da espécie, quando assustadas, saltou do nosso quintal e, à altura do telhado, desapareceu do outro lado da capela. Pensava-se que fosse pousar na grama, mas gritos desesperados indicavam que continuava em seu voo destrambelhado. Um pouco  mais, e, eis que surge à frente, em nossa direção, sempre à altura do telhado da capela de Santo Antônio, depois de contorná-la.

Acompanhamos o restante do seu voo até que pousou no mesmo ponto de onde partira.

De forma similar ao feito de Santos Dumont, ao levantar voo, contornar a Torre Eiffel e aterrissar com seu 14 Bis, provando que o mais pesado que o ar pode voar, aquela galinha demonstrara que sua espécie também pode alçar-se ao ar e manter voo controlado.

Se não o faz é porque ciscar o chão melhor lhe apetece. Pode-se dizer que assim é também a espécie humana, à qual se abrem inúmeras possibilidades, nem de longe sonhadas porque interesses mais próximos, imediatos e palpáveis a desviam de objetivos nobres.

O prazer de uma viagem, ainda que salpicada de inconveniências

Um dos prazeres que tenho na vida é viagem, curta ou longa, por qualquer meio de transporte, desde que não cavalo ou veículo de duas rodas. O fato é que viagem me proporciona satisfação, higiene mental e chego a me recuperar de pequenos males físicos, tal o grau de relaxamento a que me entrego enquanto me desloco.

Devido a isso já tive experiências curiosas, até desagradáveis, sem me irritar tanto quanto em outras circunstâncias, que acabam enriquecendo a coleção de fatos dignos de registro.

Certa ocasião fiz uma, na qual sucessão de incidentes quase transformou prazer em amargura, sem falar na perda do sentido da própria viagem.

Ao contrário do que acontece normalmente, quando tenho a opção de escolha entre janela e corredor, desta vez só havia poltronas vagas ao lado do corredor e, lá fui eu, sujeito às inconveniências daquela posição.

No outro lado, na mesma direção, jovem senhora e um par de crianças, o menino entre oito e dez anos e a menina de uns quatro ou cinco, ocuparam as duas poltronas.

Imediatamente, minha imaginação entrou em processo de previsão em relação à presença tão próxima dos dois fedelhos.

É lógico e natural que crianças sejam inquietas, palradoras, e inconvenientes de alguma maneira. Mas, para minha surpresa, eram dois anjos – se verdade que todos os anjos são tranquilos – em comportamento.

Tão logo o ônibus se pôs em movimento, procuraram se aninhar junto à mãe para dormir. Em compensação, a mulher não parava quieta.

No desvelo maternal com os pimpolhos, ela se levantava a todo o momento para acomodá-los melhor, para apanhar algo que caíra, e, chegou a ficar em pé por algum tempo enquanto mirava os filhotes. Daquelas contínuas manobras sobravam batidas de sua traseira na minha cara!

Ainda bem que não era nenhuma jamanta, podendo-se dizer que estava mais para Fiorino. E, felizmente, o escapamento se mostrava sob controle, sem nenhuma emissão de poluentes. Se não, o padecimento teria sido maior!

Embora não durma em viagem, mantenho os olhos fechados, para não tê-los demasiadamente cansados. E quando os abri a certa altura da madrugada para conferir a hora no relógio digital do veículo, vi a imagem totalmente borrada.

Algumas luzes ao lado da rodovia se me mostraram da mesma forma. Instintivamente, levei a mão aos olhos e percebi estar sem os óculos. Tateei sobre o colo, no chão ao lado da poltrona, entre a minha poltrona e a do passageiro ao lado e, nada!

Por ironia do destino, a viagem tinha como objetivo exame oftalmológico para renovação da CNH (“carlta” para os paulistas), que é de outro estado.

Pensei em pedir parada ao motorista, mas o bom senso falou mais alto, pois meus companheiros de viagem não mereciam ser perturbados. Decidi que pediria ajuda a eles quando se fizesse luz no interior do ônibus na parada regular, que não tardaria.

E, quando o veículo já se preparava para sair da rodovia, imaginei que eles poderiam ter deslizado pelo corpo até os pés, considerando-se que a poltrona estava reclinada ao máximo.

Tateei mais uma vez, à frente, e os encontrei enganchados e intactos no suporte do descanso para os pés. Foi um alívio. Não cheguei a perturbar ninguém e estava recuperado o sentido da viagem.

Em quase cinquenta anos de uso, eles nunca haviam se desprendido, acidentalmente, da minha cara em viagem. Como isso acontecera?

Lembrei-me então da mulher. Numa de suas “bundadas” na minha cara, os óculos escorregaram! Não a recrimino, porque o zelo e ternura com que cuidava dos filhos compensavam qualquer sacrifício!

Água do Rio Amazonas em lugar da água do Rio São Francisco

Fustigado por secas inclementes, intercaladas de rápidos períodos de chuva também causadores de tragédias, quando na mesma proporção da secura, o nordestino consome seus dias na esperança de, um dia, ter a água perene a jorrar da bica ou da torneira, para irrigar seu pedaço de chão, manter-se vivo e dar vida onde vive.

E essa esperança, de um lado heroicamente mantida pela fidelidade sertaneja, é ao mesmo tempo alimentada e explorada por oportunismos políticos de cores diversas, razão pela qual a solução do problema se situa no futuro.

Se a esperança é última que morre, difícil não é mantê-la enquanto um sertanejo houver de pé!

Água não jorra para o povo, mas votos correm para os espertos! A situação é mais ou menos como a da causa repassada pelo velho advogado ao filho recém-formado na mesma profissão.

Na anedota, pouco depois de assumir o escritório, o jovem advogado, muito eufórico, se chega ao antecessor: – pai, obtive minha primeira grande vitória!

Consegui encerrar aquela causa, que lhe consumiu grande parte da vida – ao que o pai responde: – Na verdade, filho, você acaba de matar a galinha dos ovos de ouro, pois foi com aquela pendenga que eu criei a família e o formei.

Antes e depois dos anéis do imperador, que não fizeram irrigar a terra e secar as lágrimas do sertanejo, muito dinheiro se perdeu em paliativos, quando não em desvios de consciência que permitem a engorda de contas terceiras.

Açudes rompidos ou não construídos, poços sem água ou dentro de grandes propriedades, caminhões-pipa a fazer o jogo de pequenos políticos, cestas básicas em mãos cheias, frentes artificiais de trabalho e de maracutaias.

Toda uma sorte de engabelação já foi aplicada contra o nordestino, que foge no pau-de-arara, quando se cresta a terra e a fome aperta, mas retorna, quando se sabe o chão natal tinto de verde!

Até fazedores de chuva, de araque, já teve o sofrido nordeste.

Ferveu durante algum tempo a discussão em torno da polêmica transposição de águas do Rio São Francisco, à revelia da contestação colocada frente ao que se considera grave agressão ao combalido curso d’água, definido como “de integração nacional”.

E o grito de alerta puxava a denúncia, que antevia o desvio da água dos seus fins sociais depois de desviadas do curso natural. A julgar pelas críticas, denúncias, e sem querer fazer trocadilho, despia-se um santo, mas, ao contrário do mote popular, não se vestia outro.

Contudo, a solução pode estar em outro ponto do mapa. Em sua maior extensão, corre por terras brasileiras o mais caudaloso rio do mundo, do qual pequena parte pode ser transposta para a região do nordeste, sem qualquer prejuízo ao seu curso e ao meio ambiente.

A partir da foz do rio Amazonas, em tubulões submarinos, água doce chegaria a pontos mais convenientes do Maranhão, Piauí e Ceará, por exemplo, de onde seria distribuída para formar lagos e perenizar rios temporários em toda a região atingida pela seca.

Idéia absurda? Isso só técnicos poderão dizer, depois de estudos e análises, considerando todos os prós e contras.

Consumada com sucesso a construção de grandes pontes sobre o mar e de túneis abaixo do mesmo, bem como outras conquistas arrojadas, creio ser a ideia consonante com viabilidade técnica.

O conhecimento humano atingiu estágio, no qual poucos obstáculos são intransponíveis pela engenharia, razão pela qual creio ser possível tornar a ideia realidade.

E a situação infeliz de tanta gente em decorrência da seca natural na região nordestina clama por solução definitiva e sem mais agressões à natureza, em lugar de paliativos à custa do rio já combalido em decorrência de ação predatória.

Por ser o problema da seca nordestina problema nacional e não regional como vem sendo considerada, a transposição de águas do rio Amazonas deve ser executada mediante esforço nacional, somando-se a capacidade de cada unidade federativa, grandes empresas, universidades e Forças Armadas.

Quando me ocorreu a ideia em fins dos anos oitenta, considerei-a maluca, mas voltei atrás cerca de trinta dias depois, ao ler proposta praticamente idêntica de engenheiro francês. A única diferença é que a água seria transposta para a África!

Bajulador, indivíduo desagradável e nocivo ao grupo de trabalho

 

Cada um de nós vive num oceano de tipos humanos, cuja diversidade pode chegar ao número de indivíduos em todo o planeta, uma vez que ninguém tem sósia absolutamente idêntica, talvez nem mesmo com a clonagem, pois é quase certo que a cópia se dê apenas no plano físico.

Se a diversidade no físico impressiona sob uma simples comparação, no campo da personalidade as variantes de uma para outro indivíduo são mais sutis, razão pela qual surpresas podemos ter com comportamentos e reações adversas às aparências manifestadas.

Indivíduo aparentemente violento pode revelar-se “coração de manteiga”, enquanto outro com asas de anjo pode ter escondidos os chifres do diabo. Daí a verdade de “quem vê cara não vê coração”!

Deixando de lado as profundezas do inconsciente, outras características afloram com facilidade, e são com elas que lidamos no dia-a-dia das relações com nossos semelhantes.

Uns são extremamente comunicativos, outros fechados em si mesmos. Aos alegres contrapõem-se os tristes; a organização é a marca de muitos, enquanto outros pecam pelo desleixo até com suas próprias vidas.

O fato é que as personalidades se manifestam de formas diversas, o que contribui para o enriquecimento da vida da espécie como um todo, proporcionando, ao mesmo tempo,  infinitas possibilidades de aprendizado.

E assim como elas variam das virtudes aos vícios em cada indivíduo, há pelo menos uma característica completamente antagônica à de outros, o que redunda em foco de antipatia entre pessoas.

Característica marcante e que atrai antipatia,  em determinadas pessoas, é a bajulação, ou puxa-saquismo, em linguagem vulgar.

Em relação a ela levanta-se minha aversão entre os defeitos que tenho, a ponto de ser ríspido só para não parecer puxa-saco. Por mais que me policie, cultivo tolerância zero para com puxa-sacos, e se possível, mantenho-me à distância deles. Assim fico livre de irritar-me.

Mas, quando temos ojeriza por alguma coisa, parece que as ocasiões nos perseguem e, por isso, coleciono diversos casos a envolver puxa-sacos.

Certa vez, estava eu numa festa em casa de certo profissional da imprensa, razão pela qual convidados, em sua maioria, eram funcionários e diretores de grande empresa de comunicação.

Lá pelas tantas, quando grande parte dos presentes já estava na fase de chamar urubu de “meu louro”, um dos diretores cismou de cantar.

Entoou um “Elvira escuta” tão desafinado e fora de ritmo que o homem mereceria o troféu “artista ao avesso”. Sim, porque para  tanto desafinar com outras pessoas, empenhadas na tentativa de  ajudar, só mesmo “artista”. É muito difícil!

Enquanto ele agredia a tradicional canção, à sua frente conhecidíssimo noticiarista e comentarista desportivo mantinha-se, literalmente, de boca aberta, quase em êxtase.

Terminado o suplício, o jornalista, não se contendo, aproximou-se do diretor a exclamar: oh! Doutor Fulano, eu não sabia que o senhor cantava tão bem! Fiquei chocado.

Um homem tido e havido como excelente profissional quase a lamber as botas do chefe! Não deixei a festa porque integrava um grupo participante.

Em outra ocasião, manhã de segunda-feira, o ponto de ônibus estava cheio. Uns regressavam do passeio de fim-de-semana e outros demandavam seus locais de trabalho.

Entre os últimos, notei um baixinho a carregar uma pasta de couro. Ele olhava para o relógio e para a rodovia, ansioso pela condução.

De repente, uma caminhonete entrou na área de embarque/desembarque e dela desceu um grandalhão com ares de importante. O rosto do baixote iluminou-se e, para perto do recém-chegado, ele se dirigiu.

Entabulou monólogo com o grandalhão que, do alto de sua importância, olhava-o com indisfarçável má vontade. O baixote, de boca rasgada até as orelhas, mostrava as canjicas (como diria a mamãe) e nem piscava os olhos fixos na cara do outro.

Assim como chegou, o grandalhão entrou na caminhonete e zarpou. Até parecia ter ali parado só para ter acariciado seu ego; sim, porque também há os que gostam de ser bajulados, cortina de fumaça para esconder possível incompetência.

Com cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança, o homenzinho ficou parado a olhar a caminhonete sumir na curva. Depois, virou-se para mim e comentou: – Fui dar uma palavrinha com o chefe e perdi o ônibus! – Bem feito – disse comigo mesmo – Toda vez que puxa-saco aprontasse uma das suas, o troco deveria vir logo em seguida!