Arquivo da categoria: Pitacos do autor

Que crime cometi?

Sem saber do que sou acusado, nem dever por qualquer crime, há muito tempo encarcerado, solitário, longe da brisa que os livres embala, penso e pergunto, não por puro lamento: por que estou preso sem julgamento?

Para o sol me ser negado, nem da chuva poder beber, que crime cometi? Quero saber.

Vejo as nuvens, sinto o vento, ouço os sons da tempestade; quisera todo o furor arrostar ao lado de um amigo, ao invés de estar nesta cela, que me cedem como abrigo.

Queria escolher meu alimento, sugar das frutas o que me é vital, mas, por mim decidem o que faz bem e o que faz mal. Que crime cometi eu?

Sou do céu e sou da terra, galgo ramos e roço as águas, canto a vida e beijo as flores; que fiz contra quem me prende às dores?

Terei subornado, tentado levar vantagem, praticado deslealdade, deixado alguém à margem de negócio combinado?

Do semelhante algo útil não furtei, nem sua vida interrompi, mas autores de ações mais vis, livres são para mais fazer. Por que então o meu sofrer?

Da campina, antes verde, vem fumaça, da floresta ouço gritos: fogo assa e ferro corta, sem piedade! Terei eu praticado tamanha temeridade?

A cascata já não brilha e o regato não borbulha; se não lembranças do passado, mostram tudo menos água, sangue da Mãe-Terra, conspurcado! Serei eu autor de tal pecado?

Carência manipulada, verdade mascarada, uns contra outros, semelhantes são jogados pela força do mais TER; ganância, mentira e ódio, de mãos dadas matando o SER!

Vejo e não consigo o sentido compreender de tanto falar e nada fazer para conter o assalto ao direito, sem que haja antes o cumprimento do dever.

Tantos erros, tantas faltas, crimes vis irrefletidos, impunes ficam por todo o sempre, enquanto sou encarcerado sem saber de que culpado.

Se o verde sobre a terra se espalha, trazendo em parte a necessária alimentação, podem ver aí minha parcela de sutil cooperação; dos frutos como, e as sementes levo do ponto farto ao que carece de melhor vegetação.

Livro as folhas da larva hostil, no ar caço o que dela nasce, e o risco certo de doença ponho ao longe. De vida própria, que tem na água o elemento natural, povoo os cursos onde bebo, levando a célula inicial, mas nem sempre tenho a sorte de alcançar o meu intento; veneno/marca da leviandade e lixo/sobra do mal-usado apontam o crime que lamento. Será por isso que hoje sou detento?

Em busca do sonho da liberdade, risco o espaço, mas não levo aos ares, nas minhas asas, o fumo negro que envenena. Faz o mesmo quem me condena?

Na natureza, compondo o quadro de harmonia, minha plumagem em muitas cores dá o toque de alegria, mas, nesta cela, triste, fria, inconformado invejo as flores. Flores? Quem disse flores?

Só mesmo quem, do mundo apartado, não vê que já feneceram, ou presas estão em vaso apertado. Ao lado da natureza e em paz com as criaturas, do PAI homem seria parceiro, vivendo sem aperturas; mas, invertendo a ordem de tudo, como não cair em desgraça?

Por tudo isso e muito mais é que faltam pássaros no ar e sobram humanos na praça!…

Felicidade, um bem proveniente do interior de si

Se, no passado, confundiu-se o ser humano na conceituação do que seja felicidade, muito mais se confunde, agora, quando as necessidades naturais são extrapoladas, acrescentando e supervalorizando as artificiais, ou seja, criadas pelo próprio indivíduo, ao adotar a falsa ideia de que não pode viver sem estas últimas.

Na era do consumismo exacerbado, cria-se a ideia, compartilhada por grande maioria de indivíduos, de que felicidade é ter saúde, amor, bastante dinheiro e sucesso na vida.

Interessante é que exemplos a contrariar essa teoria são vistos em qualquer tempo e lugar, mas, longe de as pessoas se conscientizarem sobre a falácia da felicidade construída sobre bens materiais, mais elas correm e se arriscam pelo dispensável, pelo supérfluo, pelo situado além de sua realidade; e, pior, induzidas por interesses estranhos.

Crimes e tragédias humanas, de todos os gêneros, têm como protagonistas indivíduos que se poderiam classificar felizes, a partir da fartura e bens acumulados.

Suicídio, então, sempre em número crescente como parte mais triste da história humana, é prova irrefutável de que posse de bens materiais, do mínimo ao máximo, não constitui felicidade!

A população de deprimidos não é maior entre os miseráveis, porém entre os dotados de mais recursos. A posse de dinheiro por quem não está preparado pode ser sua ruína definitiva, contrariando situação anterior de pobreza, não em estado de felicidade plena, porém livre de grande insatisfação ou tumultos em sua vida.

Grandes prêmios de loteria já mudaram cursos de vidas simples, porém equilibradas, para desaguar em infelicidades e tragédias. A realidade confirma que, necessariamente, dinheiro não traz felicidades, mas o indivíduo reluta em aceitá-la, preferindo confiar na ilusão.

Na contramão da corrente materialista há os que definem felicidade como momento eventual de satisfação, quando o indivíduo se sente inteiramente feliz, sem nenhum sofrimento.

Seria ainda um conjunto de emoções oriundas de causa específica, como a realização de antigo sonho, a satisfação de um desejo, que o indivíduo está sempre propenso buscar.

Mas, a mesma corrente classifica essa busca como utopia, pois não poderia se apoiar no mundo real, no qual o indivíduo pode experimentar o fracasso, que não corresponde ao conceito, plenamente aceito, de felicidade.

Ainda há lugar para os que a definem como plena satisfação dos desejos, bem como para os que a veem como resultante da harmonia entre indivíduos.

Até aqui, segundo diversos conceitos, o que se chama felicidade é apenas autossatisfação, elemento fugaz, que contempla momentos específicos de conquistas e realizações do indivíduo.

Tais momentos, a contemplar a satisfação puramente material ou anseios no campo dos sentimentos, dispersos em toda a vida e sem conexão entre si, têm início e fim definidos, tudo voltando à realidade, muitas vezes, dura e cruel.

Muito estranha essa felicidade, extremamente passageira, dependente de fatores externos, nascida e aniquilada ao sabor dos acontecimentos mundanos!

A harmonia entre indivíduos também se situa entre fatores externos, possivelmente eventuais e passageiros, na qual basta o descompasso de um integrante para a quebra do equilíbrio original.

Tanto posses materiais quanto sucesso nos projetos de vida pode ser resultante do estado de felicidade, mas não a sua causa: isso porque a felicidade não se vincula à matéria, mas constitui estado de espírito ou faculdade da alma, à qual se liga a uma consciência livre de maiores culpas.

Em razão disso e ao contrário da pressuposta ausência de sofrimento para ser feliz, não importa o grau de sofrimento de um indivíduo, pois ele é feliz, se tem a consciência tranquila.

O sofrimento pertence ao físico, ao corpo ou ao campo psicológico, nada a representar para a alma, que se situa em outro plano. Portanto, não é sofrimento que impede a felicidade.

Em sendo faculdade da alma, a felicidade vem do interior do próprio indivíduo, não obstante dores e obstáculos de natureza externa, aos quais ele se adapta sem prejuízo de seu estado interior.

Não importa o que digam sobre si ou que tentem fazer ruir o mundo à sua volta; sua capacidade de superação se reforça a cada momento, mediante tranquilidade reinante em sua consciência.

Se injustiçado, ele considera isso um mal menor do que ele próprio praticar a injustiça, pois sabe que tudo que provém do seu interior volta à origem, assim como a água que cai como chuva ainda retornará ao céu como nuvem.

Ele se torna consciente de que, vinculada ao SER e não ao TER, a felicidade não se esgota depois de alcançada; pereniza-se!

Considerando que, no plano espiritual, céu não deva ser um lugar, porém condição ou estado de espírito, este seria o prolongamento, em estágio superior, da felicidade na terra.

Faces ocultas da mentira

Em relação à mentira, os dicionários dizem tratar-se de: “ato ou efeito de mentir; engano, falsidade, fraude”; “afirmação contrária à verdade a fim de induzir a erro”; “qualquer coisa feita na intenção de enganar ou transmitir falsa impressão”; “pensamento, opinião ou juízo falso”.

Também no inconsciente humano, a mentira se apresenta como produto perverso da mente, pois leva a falsos julgamentos, maus negócios, intrigas, brigas e mortes.

A religião a condena como pecado e, em certas circunstâncias, mentir pode ser a ruína do indivíduo, a nódoa que o destaca, negativamente, dentro da sociedade. 

Mas, nem sempre a mentira é o que dizem os dicionários, ponto de discórdia entre pessoas, ou algo condenável, pois outras facetas apresenta, até mesma sob a marca da piedade, quando se esconde a realidade dolorosa de pessoas idosas ou doentes.

Há a mentira humorística, destacando-se aí a do pescador, do caçador,

Man’s Face with a Halo

o “causo” mineiro, etc. Mas, a mentira do bem mais difundida está na literatura: romances de todos os gêneros, realçando-se a ficção científica, na antevisão de muitas conquistas científicas e tecnológicas, que se desdobram no teatro, no vídeo e no cinema.

Vista por este ângulo, a mentira é produto engenhoso da imaginação humana, que busca o futuro, que entretém, que alarga os horizontes, que une a espécie humana numa camaradagem multicolorida. Pode-se dizer que sem a mentira não existiria a literatura e a arte, de modo geral.

 Contudo, pesa mesmo é o seu lado negativo, perverso, cruel, demolidor, especialmente quando, à sombra do anonimato, comodidade sempre buscada pelos covardes.

E aqui, para gáudio dos que se ocupam desse nojento mister, entra uma característica muito humana: em se tratando da maledicência, a mentira é mais aceita que a verdade virtuosa.

É da natureza humana a tendência pelo negativo, pela destruição. Por essa razão jornais vendem mais, quando tratam de tragédias, de escândalos e toda miséria moral.

Pelo mesmo motivo, páginas policiais são mais lidas que editoriais. É assim que, se revelado fato positivo sobre uma pessoa, quem ouve costuma não dar crédito e vai em busca de informações que o comprovem; se o fato é negativo e depõe contra a mesma pessoa, a “novidade” é propagada, imediatamente, não dando chances à oitiva de versão contrária.

 A mentira, propagada dessa forma, é como fogo a consumir rastilho de pólvora: enquanto avança, parece inofensiva, mas no fim há a “explosão” e possível destruição da imagem da pessoa atingida.

E por muito que se arrependa e se faça em sentido contrário, a condição anterior nunca se restabelece, ficando a vítima marcada para sempre.

É bem conhecida a alegoria, segundo a qual, seria humanamente impossível, recolherem-se todas as penas de uma ave, lançadas ao vento do alto de uma torre. 

Ao contrário do que se pensa, na maioria das vezes, a maledicência, a calúnia gratuita, a maldade tem origem pela língua de pessoa ou pessoas do mesmo círculo, até bem próximas, consideradas amigas; detalhe mais chocante em todo o processo.

Por agirem mais direto sobre o alvo ou vítima, supostos inimigos fazem menos mal, mesmo porque contra eles está-se, preventivamente, preparado.

Em relação ao suposto amigo, está-se totalmente desarmado, sem saber que por trás das canjicas, à mostra, língua ferina pode estar pronta a atacar tão logo a vítima se afaste de sua presença.

Quanto engano quando, presunçosamente, se diz “somos amigos(as)” ou “fulano(a) é meu/minha amigo(a)”! Pela lógica e sem contrariar o princípio da sinceridade, o mais correto seria dizer “sou amigo(a) de fulano(a)”, se não há disposição para magoar ou ofender a mesma pessoa.

O verdadeiro amigo nem sempre é aquele do sorriso sempre aberto e lisonjeiro para os à sua volta, mas quase sempre é aquele que não nos poupa reprimendas em momentos certos e nos dá até um tapa na cara, se necessário

E tapa na cara, dado por desconhecido, faz menos mal à vítima que mentira ou calúnia feita por suposto amigo à mesma! 

O poder destruidor da mentira foi provado pelo nazismo, na Alemanha, quando foi usada, sistematicamente, contra o povo judeu, ocasionando, então, uma das maiores tragédias humanas.

Os judeus já eram vítimas de preconceito e, por isso, eram perseguidos, mas a campanha nazista, entregue por Hitler a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, elevou as hostilidades antissemitas ao mais alto grau; convenceu a maior parte do povo alemão de que eles, os judeus, seriam a causa das mazelas da sociedade.

Resta saber por que algumas pessoas têm tendência à mentira danosa. Segundo estudiosos grande parte dos psicopatas não é violenta e nem entra em choque com a lei, mas todos eles são capazes e têm prazer em arruinar a vida do semelhante ao redor, seja debilitando-as, emocionalmente, ou arruinando suas finanças. Enquanto isso, posam de pessoas normais e distintas para as demais.

A vida, em Bento Rodrigues, deve continuar no espírito de sua comunidade.

O brinquedo ficou como testemunha da vida que, antes, ali prosperou.

Rápido como a lama, que se soltou do seu cercado, engolfou povoações, ceifando vidas humanas, avançou mais, ganhando distância e destroçando o que encontrava pela frente, incluindo-se vida de animais, o tempo passou e uma semana se foi desde a trágica tarde de cinco de novembro.

Não dá e, talvez, nunca dê para somar todos os prejuízos, em todos os sentidos, razão pela qual, antes da discussão em torno da culpa e responsabilidades, há que planejar a recuperação que, naturalmente, será na proporção inversa à velocidade da destruição.

Não que não se deva apurá-las e cobrá-las (culpa e responsabilidades), se houver de quem cobrar, mas vida humana é prioridade que, em ocasiões similares passadas, em pontos diversos do país, foi sufocada por veleidades e presunções na área da competência gerencial, o que sempre resulta em mais sofrimento, nas  baixas camadas sociais.

Há que reconhecer prioridade na atenção às vítimas, a começar das mais vulneráveis. De alguma forma e ainda que humilde, é pessoa humana a agente, a autora, a que produz.

A obra pode ser importante, mas não mais que seu autor e a vida. É lamentável  que se chorem as perdas do patrimônio, seja ele público ou privado, antes da atenção à pessoa que, conforme já dito, muito ainda se desgastará psicologicamente, como consequência do elo rompido no curso de sua vida, se compensação não lhe for dada  no mesmo nível.

Todo tipo de vida se perdeu, levada pela lama de roldão.

O indivíduo tem impressionante capacidade de se recuperar dos traumas e continuar sua vida, mas seu íntimo tem que encontrar apoio, também, no interior de seu semelhante, da mesma forma que o organismo físico debilitado se recupera por meio de sangue doado por outrem, seu semelhante.

Para a própria recuperação de perdas materiais é imprescindível que, primeiramente, se recupere a pessoa, que se dê força à vida.

Após as barragens rompidas, as ações em prol dos sobreviventes deveriam se conduzir, concomitantemente, nos níveis individual e, sobretudo, coletivo, considerando que comunidades rurais cultuam e valorizam, muito mais, a vida e a convivência solidária.

Todos esses aspectos deveriam ser levados em conta, no enfrentamento das consequências, que não são poucas, muitas a serem identificadas no transcorrer do processo de superação do trauma inicial.

Infelizmente, antecipando-se tais providências mais  as de cunho investigativo em torno das causas, adiantam-se instigadores inoportunos, prontos para semear o joio da dissensão, como se um impasse já houvesse entre a empresa mineradora e a parte vítima, que não se restringe ao local das barragens, englobando pessoas, patrimônios público e privado em dois estados da federação.

Demonizar a empresa em questão e o setor minerador não faz nada voltar ao estado de antes e não repõe o que se perdeu, não se recuperam vidas perdidas, bem como não conduz a qualquer discussão sensata em torno do que deve ser feito a partir de agora.

 Praticamente, nada escapou

Considere-se como delírio, sensacionalista e irresponsável, sugestão feita por profissional da mídia ao poder público, para que se     fechasse a mineradora.

Erros e falhas involuntárias existem onde está presente o homem, em qualquer atividade!

A empresa contribuiu e ainda pode contribuir para o desenvolvimento da região, ao incrementar a economia e proporcionar oportunidade de trabalho a grande número de pessoas.

No auge da comoção coletiva e primeiros contatos com a imprensa, morador de Bento Rodrigues lembrou, muito bem, que aquela localidade não se ergueu posterior, porém bem anterior à instalação das barragens.

Ora, isso é fato histórico incontestável, tendo o morador a ele aludido apenas para reforçar o que se comentava quanto à população local na condição de vítima.

Aproveitando o gancho, acrescente-se ao dito por ele que se a localização das barragens à montante da localidade foi um erro, isso deve ser compartilhado com o poder público, nas três esferas, que aprovou o projeto, autorizou sua execução, e, ao longo do tempo, não o fiscalizou adequadamente.

Em país, que se diz ou se quer organizado, não se admite, absolutamente, que empresa implante projeto de tal envergadura, pelos riscos oferecidos ao meio ambiente e à coletividade nos aspetos da saúde, segurança, patrimônio e economia, sem cuidadoso estudo e acompanhamento do poder público.

Ademais, é sabido que o setor minerador carece de legislação específica, atual e condizente com o direito público no estado moderno; mais uma razão para se dizer não à culpabilização unilateral, que a afoiteza ingênua ou de natureza político-ideológica tenta impor antes que se conheçam as verdadeiras causas da tragédia. NGB

Nota: Publicado, à época dos acontecimentos, em O LIBERAL/Ouro Preto.

Tragédias múltiplas no rompimento de barragem em Bento Rodrigues/Mariana

 A tranquilidade de Bento Rodrigues antes da tragédia

Independente do que teria sido sua causa, o rompimento das barragens de rejeitos de mineração, no interior do município de Mariana, foi, é, e continuará sendo uma das mais graves tragédias humanas na região, mesmo que não tivesse causado perda de vidas humanas, fato que mais infelicita os        colhidos por momentos como este.

Aos que escaparam à morte, na tragédia, mais que as perdas materiais, pesa a ausência dos que se foram e a angústia por terem sido desalojados de suas casas, interrompendo o curso normal de suas vidas, programadas, uma a uma, de acordo com as posses, conveniências e perspectivas.

Essa é a marca que fica, na memória de cada um, ainda que soluções satisfatórias sejam dadas a cada vazio provocado pelo súbito, indesejado e involuntário deslocamento.

Poucas coisas oprimem mais o indivíduo que o desalojamento forçado, não importando as circunstâncias em que se dá o fato, mesmo se a mudança, eventualmente, o coloca em melhores condições.

 A tragédia em Bento Rodrigues sepultou          muitos sonhos

O ser humano, independente de sua condição social, escolhe como e onde viver e, com a habitação, cria um vínculo sentimental, cujo rompimento só se admite por iniciativa própria, sem qualquer pressão externa, especialmente no caso do idoso. O deslocamento forçado, para o deslocado, já é uma tragédia!

Afetividade surgida entre ele e a habitação pode chegar aos mesmos níveis do relacionamento intrafamiliar.

Em cada canto ele guarda suas lembranças; sejam elas de alegria ou de tristeza.

As paredes foram suas confidentes nas horas de       angústia, quando as intempéries da vida impediam seu avanço na busca do melhor para si e para sua família.

O teto cobriu-o, protegendo-o do frio, do calor intenso e da chuva. Pelas janelas, entraram durante muito tempo a paisagem contígua, o colorida da folhagem, o perfume das flores e a brisa refrescante.

Pela porta entraram os amigos, e saíram, para o túmulo, entes queridos. Cada detalhe do cantinho onde vive o indivíduo, a distribuição e posição dos móveis, seu local preferido nos momentos de reflexão, tudo tem para ele um valor, que extrapola o pecuniário, razão pela qual a angústia, dificilmente, cede lugar à plena satisfação.

Em se tratando de pequena comunidade, onde indivíduos vivem como se uma família fosse, tantos laços afetivos, interesses em comum, imagine-se o mesmo sentimento multiplicado em nível coletivo, cada qual guardar a sua história, entrelaçada com todas as demais da comunidade! É outra tragédia à parte!

Se, de repente, fator externo interfere na continuidade daquele estreitamento de relações, o indivíduo se sente perdido.

No início, o tremendo vazio é compensado pela solidariedade, que brota espontaneamente, mas passado o clímax das emoções, socorristas voluntários já voltados ao quotidiano de suas vidas, a vítima continua a viver seu drama, sem que muita atenção lhe deem.

Passado mais um pouco, já empenhado na luta pelos direitos, o que era desatenção pode converter-se em repúdio à vítima, agora considerada estorvo à vida dos demais.

É quando lhe batem a porta na cara, não o atendem pelo telefone, negam-lhe testemunho necessário em processos legais.

Se na tragédia inicial foi alvo da fúria dos elementos que a compunham, agora tem contra si a fúria do coração humano, mais outra tragédia! E essa machuca mais!

Infelizmente, não são conjecturas sem fundamento, mas a linha do tempo, com ligeiras variáveis, que se repete após todas as tragédias neste Brasil!

A mesma tragédia leva a outras considerações, a começar pelas primeiras notícias, que apontaram dezesseis mortos, quando ainda nenhum cadáver havia sido visto ou encontrado.

Fontes afoitas e irresponsáveis passaram a informação, sem se preocupar com a angústia e sofrimento antecipado de pessoas que ouviriam o noticiário. Para tais fontes, sem cadáveres em grande número e muito sangue a jorrar nenhum infortúnio é tragédia!

Ninguém imaginava que aquele cantinho fosse sofrer tão grande tragédia

A ignorância reinante com relação à divisão político-administrativa brasileira também produziu pérolas como esta de um apresentador de TV, a partir de São Paulo:

“Bento Rodrigues é um distrito da cidade de Mariana. No interior de Minas Gerais é muito comum as cidades terem vários distritos”.

Oh! santa ignorância! Antes deveriam consultar o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, evitando propalar tanta besteira. Tragédia cultural!

Segundo o IBGE “municípios constituem as unidades de menor hierarquia dentro da organização político-administrativa do Brasil. A localidade onde está sediada a Prefeitura Municipal tem a categoria de cidade” e “distritos são unidades administrativas dos municípios. A localidade onde está sediada a autoridade distrital, excluído o distrito da sede municipal, tem a categoria de Vila”.

Registre-se que Bento Rodrigues não é distrito (não existe subdistrito na classificação do IBGE), porém localidade  integrante do distrito de Santa Rita Durão/Mariana.

Ó zé mané! distrito não pertence à cidade e não existe só no interior de Minas Gerais, mas em todo o Brasil!

NOTA: publicado, à época, em O LIBERAL/Ouro Preto.

De comida de pobre o ora pro nobis passa a prato de bacana

  Flor do ora pro nobis

Como o espinhento ora pro nobis passou de frango dos pobres a prato sofisticado e caro do bacana, ao lado do umbigo de banana, agora presente em restaurantes, além da ascensão do broto de bambu em conserva, o palmito dos pobres.

Em tempo de tantas novidades, trazidas pela tecnologia a avançar sobre o infinito, conceitos também são revistos; o que era ultrapassado e colocado de

 A planta ora pro nobis

lado se recicla; o antes nem considerado agora ganha valor e do que esteve no topo, às vezes, não resta pó. O ora pro nobis saltou para o topo da culinária!

Na cozinha e na mesa, por exemplo, dois exemplos de pratos que, no passado, não tinham lugar entre os ditos de paladar mais refinado. Era comida de pobre, entre os mais pobres!

De sua moita espinhenta, situada a um canto do quintal, a dona de casa catava as folhas suculentas e mais tenras do ora pro nobis (ou lebrobrô), então considerado o frango do pobre, para se preparar o guisado a ser saboreado com angu (não é pooolenta, não, cara-pálida).

Levemente escorregadio, de sabor que açula o apetite, o ora pro nobis provia os menos afortunados de nutrientes que, somente agora se reconhecem na planta.

Pois bem, o ora pro nobis se projetou na culinária, ganhou espaço no cardápio de restaurantes e é tema de festivais gastronômicos, sem deixar de ser o frango do pobre, se este cultivá-lo num canto de terra.

Em restaurantes de cidades turísticas mineiras, o ora pro nobis é prato de destaque e caro, atingindo conceito bem diferente de cinquenta, sessenta anos atrás.

Outro destaque, na gastronomia popular, embora com menor brilho, é o umbigo de banana. Outrora bastante consumido, ao lado do ora pro nobis, por pessoas de baixa renda, de repente, ele desapareceu do cardápio popular.

Algumas gerações não o conheceram como comida, até seu ressurgimento, há pouco tempo. E aqui relato fato que atesta o esquecimento daquele que fora iguaria tão apreciada.

Conhecido programa de televisão deveria fazer uma gravação em Cachoeira do Campo/Ouro Preto, focando a história local, seus costumes, cultura, etc.

Uma das solicitações da equipe é que fosse apontado um prato típico. Um dos contatos locais consultou o autor deste sobre o que poderia ser apontado como prato típico local. Sem pestanejar, foi-lhe dito: – umbigo de banana. Ao que ele reagiu estupefato: – mas isso se come?!…

Ele não acreditou e foi apresentada outra coisa que não tinha nada a ver com a culinária local. Pouco depois, coincidência ou não, o umbigo de banana voltou ao cardápio local, incluindo-se o de restaurantes, e, para quem não tem bananeira no quintal, o umbigo in natura passou a ser encontrado em supermercado.

Mas, esta abordagem ao ora pro nobis e ao umbigo de banana que, de pobres passaram a nobres, serve mais para assestar a mira sobre outro material, que também sai da penumbra e promete altos voos na aplicação industrial.

Uma das muitas espécies de bambu

E ele nada mais é que o prosaico bambu com suas cerca de mil e trezentas espécies. Entre humanos, com exceção da subespécie “urbanoide”, acredita-se que todos conhecem e, de alguma forma, já utilizaram ou lidaram com bambu, alguma vez, na vida.

Antes do muro, mais com a função de dificultar invasões, era o bambu que marcava limites, sem quebrar a política da boa vizinhança. E, às vezes, tais cercas eram verdadeiras obras de arte, tal era o capricho empregado por seus construtores: tamanho uniforme das peças de bambu, bem alinhadas mediante amarração perfeita.

Com o mesmo material e mesma técnica eram construídos galinheiros. Na área rural, ele servia de encanamento à água levada ao terreiro da residência; móveis rústicos eram com ele improvisados; pessoas mais habilidosas, de veia artística-musical, dele se valiam para a fabricação de flautas; e os forros das casas se fazia com a taquara, outra espécie de bambu, a mesma ainda hoje utilizada por artesãos de Lavras Novas/Ouro Preto, na fabricação de cestos, balaios e outros diversos objetos.

Não se pode esquecer das “bombas”, que se resumiam em gomos, previamente enchidos com água, arrolhados e colocados nas fogueiras das festas juninas. Os estouros eram festas à parte!

Mais que produto industrial, largamente anunciado na televisão, o bambu era, verdadeiramente, das mil e uma utilidades! Era e continua a ser, mais do que nunca, com a constatação de  sua dureza e resistência, o substituto ideal, ecologicamente correto, para a madeira, cuja utilização descontrolada pode fazer da terra um só deserto.

Pisos e placas de revestimento, bem como outros itens feitos de bambu, deverão substituir a madeira, no acabamento de construções, com grandes benefícios à natureza e à economia, de forma geral.

Cadeira feita de bambu

Ao contrário da madeira comercial, que leva, em média, trinta anos para se desenvolver, o bambu se desenvolve no prazo de três a seis anos e se recompõe, naturalmente, após o corte

Adaptável a diferentes climas, dispensa replantio e suas raízes, mediante verdadeiro emaranhado no subsolo, revertem a instabilidade de solos, o que recomenda seu plantio em áreas passíveis de escorregamento de rochas.

Como o início deste texto focou em itens da alimentação popular, registre-se que o bambu, além de todas estas e outras utilidades, também fornece alimento. Seu broto, rico em nutrientes, sob a forma de conserva se assemelha e pode ser considerado o palmito do pobre!

A Lei é para todos

Algo novo está acontecer neste país, grande bobo e irresponsável! Figuras imponentes da República, que se julgam acima da Lei, e, em razão disso caíram em suspeição, atraem o foco das investigações que se fazem em torno da corrupção a envolver a petroleira estatal e grandes empresas construtoras, suas empreiteiras.

 

Convertidas as focalizadas em pessoas físicas, o processo investigatório atinge políticos de alto coturno e empresários do topo da pirâmide econômica, gente que se supunha inatingível pelos braços da Lei.

 

Desde os esboços deste país, no período colonial, desenvolveu-se a cultura de que investigação, indiciamento e prisão eram exclusivos para os tipos “zé mané”, “zé ruela” ficando o “graudão”, o “medalhão”, o ricaço e respectivas estrepolias acobertados pelo famoso jeitinho e presunção de estarem acima da Lei.

 

Mas, os tempos mudam em todo o mundo, e, chegou o momento de, no Brasil, isso acontecer também. É bem verdade que indícios de mudanças vinham ocorrendo há algum tempo.

 

A princípio, em razão da citada mentalidade nacional, que se caracteriza por uma subserviência chegada ao ridículo diante de detentores de poder, houve descrença quanto ao prosseguimento das ações em defesa da lei e do legítimo poder do Estado.

 

Mas, desta vez, as expectativas se revelaram falsas! Ao contrário do fogo-de-palha, que se supunha, grande braseiro era a base para a fogueira, que se avolumaria e na qual passariam a arder consciências aliadas à antiética e desonestidade, agora fustigadas pelos guardiães da Lei.

 

Se não há bem que nunca se acabe, também não há mal que perdure para sempre!

 

Assim sendo, chegou-se à sexta-feira (Black Friday in politics?), quatro de março, quando tremeram mais forte as convicções de sustentabilidade do projeto político, acalentado pelo partido, eventualmente, no poder.

 

Tal projeto consistiria em continuísmo, alicerçado na mais escancarada política populista.

 

Levado a depor, por coerção, no processo investigatório em andamento, o prócer maior do partido governista chamou sobre si as atenções, interna, pela novidade em figura de tal porte ser alvo de investigação, e externa, pelo novo comportamento das instituições brasileiras em relação à delinquência de colarinho branco.

Por aqui, muita surpresa, porque não se está acostumado a ver figurões a prestar esclarecimentos sobre sua conduta diante da polícia, ao contrário de outros países, onde a lei é, de fato, igual para todos.

 

O que lá fora é normal, aqui é exceção com cheiro de afronta ao cidadão e de “ilegalidade”. Não se fala de depoimento como réu, se culpa formada ainda não há, porém de procedimento regular e legal em busca da verdade, o que não parecem entender grupos, em fúria, tanto pró quanto contra o ex-presidente, que se “descabelou” como o supremo ofendido.

 

Quem não deve não teme e não treme, mas este não tem sido o comportamento do ex-presidente, que já tentou obstruir o processo com recursos jurídicos, prática comum entre tupiniquins às voltas com a Justiça, sabendo-se de antemão que as leis estão cheias de brechas.

Para quem não deve, o normal e mais correto é deixar que as investigações prossigam e produzam o resultado que, sendo a inocência, não desapontará o investigado.

 

Palavras agressivas contra autoridades policiais e o Judiciário também não constituem meio de provar inocência, valendo isso tanto para o cidadão comum quanto para ex-presidente da República.

 

O inocente, humildemente, aquieta-se e espera a verdade vir à tona; não vocifera!

 

Em outro aspecto, não fica bem a qualquer cidadão, notadamente se ex-presidente da República, arvorar-se dotado desta ou daquela virtude ou qualidade.

 

O verdadeiramente honesto não se apresenta como tal, porém espera que outros, preferencialmente de fora de seus círculos íntimos, digam isso de si. Quem melhor vê nosso rosto é o que conosco se defronta!

 

A partir dos últimos acontecimentos, na sequência de ações iniciadas há algum tempo, percebe-se que o Brasil, depois de prolongada e indisciplinada adolescência, pode estar a entrar na idade adulta.

 

É o primeiro sinal de que o conceito de igualdade perante a Lei passará, de fato, a ser levado em conta, nas relações do Estado com o cidadão. A observação de que os rigores da Lei estão reservados, exclusivamente, aos três pês, pode estar chegando ao fim, mas é bom manter a vigilância contra as matreirices usadas para garantir mais igualdade entre os do topo de pirâmide.

 

Pouco ou nada se comentou em torno da atitude imprópria da presidente da República, em visita de solidariedade à residência do seu correligionário e guru político, após o depoimento deste.

 

Lamentável que tal fato não tenha sido criticado na mídia, porque seu gesto foi antiético e de confronto com outro poder do Estado brasileiro.

 

Que ela manifestasse solidariedade por telefone ou por outros meios privados, direito pessoal seu, mas nunca sob a forma presencial, aparecendo ao público como chefe de Estado e, ainda que simbolicamente, em oposição ao poder Judiciário.

 

A presidente agiu como guerrilheira, que já foi, atropelando a ética e todas as normas consagradas das quais deve se cercar o verdadeiro estadista. NGB

 

NOTA: Publicado, à época dos acontecimentos em O LIBERAL/Ouro Preto.

Aedes Aegipti, o mosquito mais importante do Brasil!

Em outro post, com o mesmo título acima, focalizou-se aqui o Aedes Aegipti, causador de uma entre as diversas tragédias vividas neste imenso território, dito descoberto pelos portugueses e habitado por sua descendência, à qual se misturaram gentes de todos os quadrantes do planeta.

 

Se existe mesmo diabo, para tentar, atormentar, provocar e atentar contra o ser humano, o Aedes aegypti deve ser o próprio, e, contra ele, pior estamos, pois não existe reza brava ou exorcismo que o afaste.

Até agora, embora anunciem vacina em fase de teste, o safardana entre os insetos tem ganhado em todas as frentes, atormentando a população, deixando as autoridades médicas de cabelo em pé contra as surpresas, que ainda poderão vir do vilão, e assanhando oportunistas de plantão, que ganham notoriedade com exposição na mídia.

 

Ao falar em surpresas, tão ao gosto do xexelento Aedes Aegipti, desde aquela abordagem, seu saco de maldades mostrou mais dalgumas, entre as quais a que pode provocar a síndrome de Guillain-Barré (pronuncia-se guiiã barrê), doença que, numa visão bem restrita, causa enfraquecimento dos músculos, seguido de paralisia progressiva dos membros, podendo provocar a morte, se não tratada imediatamente.

A todo o momento surgem novas informações sobre o que pode transmitir ou provocar o Aedes aegypti, de acordo com o vírus de que está infectado.

O danado do mosquito, em sua malvadeza, parece dotado de alguma inteligência ou dirigido por outrem, pois entre todas as doenças que já trouxe à humanidade, somente a febre a amarela foi vencida pela ciência, mediante vacina.

As demais, dengue, chikungunya e zika continuam sem solução e ainda aparecem intervenções do zika vírus a causar a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré.

Vencido na primeira investida, deve o Aedes Aegipti  ter pensado, se é que mosquito pensa: “esperem para ver o que vou lhes arrumar”. Pensou, passou à ação, e, agora estamos nós às voltas com essa coisa.

 

Pela extensão do mal, que avança pelo planeta, desde a maneira como o inseto se comporta, prolifera e causa moléstias, o combate ao Aedes Aegipti deve-se proceder de forma coletiva, em que nenhum indivíduo ou, pelo menos, nenhuma edícula ou morada pode ficar de fora.

Está de acordo com a lógica e é para essa ação que o público tem sido conclamado. Mas, ela é exequível na prática e suficiente para derrotar o mosquito? Duvida-se, e muito, disso!

 

Como parte da educação a ser ministrada com relação ao problema, sabendo-se ainda que seus resultados só virão a longuíssimo prazo, tudo bem, não se discute sua validade, mas a extensão dos estragos em andamento na saúde pública exige muito mais.

Ao longo dos anos, o Aedes Aegipti foi deixado muito à vontade pelos governos, que lhe deram pouca ou nenhuma atenção, ocupados que sempre estiveram com um ufanismo besta e assentado, nomeadamente, no desempenho futebolístico, ora decaído, e, no carnaval de palco da Sapucaí.

A dengue não foi introduzida assim como é e ataca as pessoas, atualmente. A princípio, a doença não apresentava características tão graves, destacando-se entre os sintomas o corpo mole, daí o nome dengue, que lhe foi dado.

Em lugar de estudos sérios sobre sua origem, desdobramentos e consequências, concentraram-se as atenções nos sintomas, então de mais fácil combate.

 

Sem encontrar maior resistência, no meio onde atuava o mosquito, a doença alcançou estágios mais perigosos, evoluindo até provocar morte. Ainda assim, praticamente nada se fez, para conter o avanço do mosquito em sua sanha contra a saúde pública.

Portanto, a situação atual é consequência direta da omissão governamental e não por culpa do povo, desamparado em todos os sentidos, em consequência da falta de políticas públicas sólidas e sérias, nas áreas da educação, da saúde e do desenvolvimento em geral.

Na verdade, o povo está perdido no meio das discussões politiqueiras, a envolver, praticamente, três dúzias de partidos, cujos ideais em proveito da nação não vão além de palavras vãs e promessas que não se cumprem, quando não a esconder intenções de desviar para o próprio quintal o que pertence à área pública.

 

Depois de tudo isso, não é com a pirotecnia oficial, tendo à frente a Grande Autoridade e seu círculo restrito, que erros serão corrigidos ou compensados, instalando-se então o bom senso, a competência, a boa administração dos recursos públicos, na solução de problemas que dizem respeito ao bem estar coletivo nacional.

Mais do que no oba-oba das ruas, o combate ao Aedes aegypti e às doenças por ele transmitidas deve ser travado no silêncio dos laboratórios, aos quais não se deveria regatear recursos que, para setores e causas de baixa prioridade, são liberados à mancheia.

Aedes Aegipti, o mosquito mais importante do Brasil!

Sem querer desmerecer outros, o mosquito da dengue, também chamado Aedes Aegipti, tem sido o personagem mais destacado na área da Saúde (ou da doença?) no Brasil.

O personagem não é novo na vida brasileira, mas só na segunda metade do século passado que, saindo dos laboratórios e meios científicos, seu nome se popularizou, tornando-se conhecido mesmo entre pobres.

Mas, se seu nome era desconhecido, sua ação era devastadora, não se permitindo brincar com sua pequenez física, porque o que ele faz comprova o ditado popular de que “tamanho não é documento”.

 

O pequeno no tamanho e gigante nas maldades contra a espécie humana é o popular “mosquito da dengue”, pomposamente batizado Aedes aegypti, como é praxe, entre seres viventes, receber nomes complicados nos círculos científicos.

 

O raio do mosquitinho sem vergonha, além de doenças, gera polêmica até no nome! Alguns pronunciam “edes egiptsi” (pronúncia em Latim), outros “aedes egiptsi” (pronúncia mista latim/grego).

 

No primeiro caso “aedes” significa “edificação” ou “edifício” e o nome do mosquito em Português seria algo como “edifício do Egito”; no segundo caso o “aedes” significa “odioso”, “desagradável”, “incômodo” ficando o nome em Português parecido com “odioso do Egito”.

 

Está aí explicado, em rápidas palavras, o nome do tão temido inseto, pequenino, porém capaz de abalar a presunçosa crença de que o homem é o “dono do mundo”.

 

Até agora, não se conseguiu meio de dominá-lo! Também como o ser o humano, o mosquito tem suas manias.

 

Segundo literatura sobre o assunto, o xexelento mosquito tem pelo menos uma norma de higiene, pois prefere água limpa, onde botar seus ovos, mas que não se iludam os humanos, porque na falta da limpa, os ovos são depositados em qualquer água.

 

Não é dito o porquê disso, mas desconfio que o sacripanta intui sobre a maior probabilidade de os ovos se conservarem em meio mais limpo, no caso de a água secar, coisa muito fácil em depósitos diminutos.

 

É incrível, mas os ovinhos, não eclodidos (que não produziram novos mosquitos) dentro de mais ou menos uma semana, têm a propriedade de se conservar por mais de um ano, agarrados nas bordas dos recipientes.

 

Imagine-se quantos deles ficam a aguardar o momento propício, na temporada seguinte, para gerar mais mosquitos. Se todos os mosquitos fossem mortos (se possível fosse), ainda assim, na primeira oportunidade, surgiriam outros milhões para dar continuidade à “obra” da espécie.

 

Se existe diabo, o Aedes aegypti é o próprio! Desse jeito não é hoje e nem nunca que essa praga será dominada. Êta mosquitinho da moléstia! – como diria o nordestino, mas aqui corrigido para o plural, “moléstias”, pois como polivalente não é pouca porcaria, não!

 

Outra mania dele: gosta de picar durante o dia, em silêncio, sorrateiro como convém ao covarde, ao contrário do pernilongo comum, que prefere agir à noite e “avisa”.

 

Mas o curioso mesmo, segundo os entendidos, somente as fêmeas picam e sugam o sangue, preferindo sempre homens (faz sentido). Os que picam mulheres devem ser homo-afetivos; tá na moda! O safardana – mais um epíteto entre os muitos merecidos – é, como já dito, polivalente nas maldades e desgraça geradas entre humanos, sendo a dengue a mais conhecida, alcançando todas as classes sociais.

 

A princípio, a doença não apresentava características tão graves, destacando-se entre os sintomas o corpo mole (daí o nome dengue). O danado do mosquito gostou do que fez, mas resolveu aprimorar-se, produzindo então outros tipos de dengue, chegando até a hemorrágica, que pode matar.

 

E não parou por aí! Como dito, o Aedes aegypti deve ter gostado, porque os humanos não conseguiram combater a nova doença, ao contrário do que se fizera com a anterior.

 

Sim, no ambiente urbano, o pilantra já havia produzido a febre amarela, mas esta foi erradicada mediante vacina.

 

Registre-se que, no ambiente silvestre, o vetor da febre amarela é outro mosquito, ficando a infestação nos centros urbanos, “a cargo” do Aedes aegypti, talvez por ser este mais chegado às cidades, onde pode estar mais perto do maior número de humanos.

 

Em 2010, depois de tanto atormentar vitimas, governo, profissionais da saúde e cientistas, o famigerado Aedes Aegypti trouxe, do exterior, a febre chikungunya, moléstia bem parecida com a dengue, porém acrescida de inflamação, dores e inchaço nas articulações.

 

Mas, o saco de maldades do Aedes aegypti sempre tem novidades, à semelhança da cartola de mágico; quando menos se espera, de lá de dentro ele tira outra doença para os humanos.

 

Por útimo, ele trouxe, também do exterior, o zika vírus, completando a tríade com a dengue e chikungunya. Para completar o quadro de danos, descobriu-se depois que o zika vírus pode afetar bebês em gestação, causando-lhes a microcefalia, que impede o desenvolvimento do cérebro.

 fonte: noticias.uol.com.br

Será que com tanta ciência, tanta tecnologia e tanto empenho em conquistas, o ser humano vai perder para esse mosquitinho porqueira?NGB

Rio de Janeiro deixou de ser capital federal porque o poder tinha que ficar longe do povo

Arquiteto e urbanista dizia que o Rio de Janeiro perdeu o status de capital federal, em razão de um golpe político, que pretendia colocar distância entre o poder e o povo.

Há três anos, se reações físicas e violentas houve, em razão dos jogos olímpicos, de outro, exercitaram-se ideias em torno do mesmo assunto ou fatos com ele relacionados.

Em tempo de internet, Facebook e outras trenheiras informáticas, é fácil dar de cara com opiniões de “a” a “z”, vindas de qualquer parte, entre elas a do arquiteto e urbanista Carlos Sandrini, presidente do Centro Europeu.

Dizia ele no artigo, “Quanto ainda devemos ao Rio de Janeiro?” que aquela cidade foi seriamente prejudicada com a mudança da capital federal para Brasília, num ato político, chamado por ele de golpe.

Segundo o autor, a capital foi levada para o Planalto Central, com o objetivo de colocar distância entre o poder e o povo. Aqui ele dizia: “Diferente de Brasília, o Rio não era lugar de passagem dos políticos durante três dias da semana ao longo de oito meses do ano.

O Rio era desejado como um prêmio extra para o cumprimento do mandato. A cidade foi ganhando a forma desejada pelos que lá chegavam de todas as partes do Brasil.

As melhores escolas, melhores hospitais, segurança reforçada, além dos melhores teatros, cassinos, hotéis e bordéis, não estavam lá para atrair turistas, mas para servir e entreter o poder e os que orbitavam em volta dele”.

Mais adiante, reclamava: “a criação de uma capital que levou o poder para longe do povo e o declínio de uma cidade que, além de ser a mais bela do mundo, era culta, politizada, rica e acordou sem poder, sem trabalho e sem projeto de futuro.

Apesar disso, o Rio de Janeiro continuou sendo a imagem do Brasil e do brasileiro no exterior, e teve que se reinventar ao longo dos anos”.

Tadinho do Rio!!! Ficou pobrezinho e abandonado! Desculpe-me, Sr. Sandrini, mas o senhor exagerou na dose! O Rio de Janeiro, por sua beleza, pujança cultural e econômica se basta!

Não precisava ser capital do Império e da República para ser o que foi, é e será. Não é melhor porque a qualidade dos políticos não deixa. A saída do poder federal foi apenas um arranhãozinho em seu status.

Políticos da época a passar mais tempo no Rio de Janeiro não quer dizer que estavam a trabalhar. Estavam mesmo é na gandaia, como bem sugere o próprio autor.

Sr. Sandrini, se no Brasil há cidade que foi abandonada e empobrecida, em circunstâncias semelhantes, ela é Ouro Preto.

Enquanto engatinhava esta infeliz e corrompida República, republicanos, na ânsia de mostrar trabalho e, ao mesmo tempo, agredir sentimentos políticos da Imperial Cidade de Ouro Preto, entenderam de tirar-lhe o status de capital de Minas Gerais.

Edificada a Cidade de Minas (mais tarde Belo Horizonte), o governo mineiro agiu como os tropeiros de então; levantou acampamento, jogou água no borralho e partiu, sem olhar para trás.

Testemunhas contavam que ficaram ruas inteiras com as casas abandonadas, algumas com a chave na porta. Pequenas indústrias, comércio, prestadores de serviços, que não seguiram os rastros do governo e sua máquina, foram à falência.

Tudo acabou e a fome bateu à porta de muita gente; até comerciante bem sucedido terminou seus dias como gari da prefeitura.

Foi a maior covardia de um governo contra toda a população de uma cidade! Paradoxalmente, graças a essa covardia que Ouro Preto se conservou em seu aspecto original.

Não nos venha, portanto, Sr. Sandrini, dizer que o Rio de Janeiro foi abandonado à própria sorte e os brasileiros lhe devem por ter perdido o status de capital federal. NGB

Adaptação de publicação feita, à época, em O LIBERAL/Ouro Preto.