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Fiado só amanhã, se você pagar hoje

Como evitar o fiado e reduzir a inadimplência na sua empresa

 *Erik Penna

Tenho participado como especialista convidado num programa de TV e, no último episódio, abordamos como evitar o fiado e reduzir a inadimplência na sua empresa, assunto tão importante para o bom andamento de um negócio.

Segundo o IBGE, 60% das empresas fecham antes de completar 60 meses e o principal motivo é a má gestão financeira. Por isso, costumo dizer durante minhas palestras de vendas que não adianta só vender, é preciso receber. Enumero então a seguir 7 dicas que vão lhe ajudar nesse propósito:

1 – Ficha cadastral
A dica é criar uma rotina de atendimento ao cliente, desde a sua entrada até a hora dele ir embora. E se o cliente for comprar, é importante fazer um cadastro anotando nome, endereço, telefone e CPF.

É preciso fazer de imediato a consulta do CPF do cliente para saber se ele é um bom pagador ou se está devendo na praça. Munido dessa informação, é possível tomar a decisão de dar o crédito ou não.

A empresa não deve fazer o serviço sem antes estar bem definida a condição de pagamento com o cliente.

2- Aprender a dizer não
Sim, às vezes não é fácil, mas é necessário ter a coragem para negar algumas vendas. Principalmente para aqueles clientes que querem comprar e nem sempre querem pagar.

Fiado vem da palavra confiado e, muitas vezes, é sinônimo de imprecisão e insegurança. Isso pode comprometer o seu negócio.

Outro dia, o dono de um supermercado me falou que a meta dele era dobrar o faturamento em 1 ano. E ele conseguiu, mas pouco tempo depois fechou as portas. Vendeu para quem não devia e quebrou.

É fundamental fazer uma análise criteriosa de clientes, trata-se de uma das atribuições do empreendedor de sucesso.

3- Aviso de vencimento
Entre os principais motivos pelos quais as pessoas não pagam as contas estão: não têm o dinheiro ou esqueceu de pagar.

Quantas vezes o consumidor não paga a conta de água, luz, telefone, condomínio porque o boleto não chegou?

Então a sugestão é criar um lembrete de ouro, um aviso de vencimento que você envia para o e-mail ou celular do cliente, assim, no dia do vencimento, ele é avisado, você elimina a desculpa “esqueci” e reduz a inadimplência na sua empresa.

4- Parcelamento
É importante negociar. Se o cliente já foi avisado e não pagou, não fique esperando, ligue pra ele, descubra o que aconteceu e, se for o caso, tente receber de forma parcelada. E mesmo que no dia ele não tenha o montante total aceite receber aos poucos.

Parece curioso, mas uma outra forma de receber o fiado é continuar vendendo. Mas agora de uma forma diferente, ou seja, se a pessoa está lhe devendo R$ 300,00 no seu comércio, e aparecer lá para comprar mais R$ 100,00, não deixe de vender. Você concorda em atender o cliente desde que ele pague à vista 150,00, ou seja, R$ 100,00 da compra à vista e R$ 50,00 referente a conta anterior, mantendo, assim, o cliente ativo e amortizando a dívida antiga.

5- Valor diferenciado
Se você vende no crediário e quer diminuir esse tipo de venda a prazo com maior risco de não receber, vale a pena apostar num preço diferenciado. Imagine uma roupa que, no crediário, sai por R$ 80,00, mas, se o cliente optar por pagar em dinheiro ou no cartão de crédito ela sairá por R$ 70,00. É uma forma de direcionar as vendas para um meio de pagamento mais seguro.

6- Pequenas Causas
E para aqueles clientes que você já tentou cobrar e não obteve êxito vale a pena tentar a ajuda no JEC- Juizado Especial Cível – o famoso Pequenas Causas. Um conciliador irá chamar as partes envolvidas para tentar viabilizar um acordo e diversos casos são bem resolvidos em até 90 ou 120 dias.

7- Negativação
Se nada adiantou, cabe ainda analisar a possibilidade de negativar o cliente. Você paga em torno de 4 reais e negativa o nome do mau pagador, assim, quando ele precisar do nome limpo para conseguir algum crédito ele vai te procurar.

Isso aconteceu comigo quando eu trabalhava numa empresa de alimentos, um cliente não pagou e foi negativado. Dois anos depois ele apareceu dizendo que estava tentando um financiamento para comprar a casa própria e precisava do nome limpo. Demorou, mas ele quitou o valor com todos os juros.

Dicas fáceis, simples e de baixo custo que vão reduzir a inadimplência na sua empresa.

Agora é hora de agir. Aliás, se a palavra tem poder, imagine a ATITUDE. Mãos à obra!

Erik Penna é palestrante de vendas e motivação, especialista em vendas com qualificação internacional, consultor e autor dos livros “A Divertida Arte de Vender”, “Motivação Nota 10”, “21 soluções para potencializar seu negócio”, “Atendimento Mágico – Como Encantar e Surpreender Clientes” e “O Dom de Motivar na Arte de Educar”. Saiba mais sobre motivação e vendas em: www.erikpenna.com.br

Outubro rosa: a luta contra o câncer de mama

 

Outubro Rosa: conheça 5 direitos do INSS para mulheres com câncer de mama

 Segundo dados da Secretaria da Previdência, foram mais de 21 mil benefícios concedidos em 2017 para seguradas em tratamento 

Especialista em Direito Previdenciário e cofundador do site Previdenciarista, Átila Abella, explica quais são esses direitos e como solicitá-los

O câncer de mama é o segundo tipo de tumor mais frequente no mundo. De acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (INCA), são esperados cerca de 60 mil novos casos da doença no Brasil em 2018. O que poucas pessoas sabem é que as pacientes diagnosticadas com a condição e que contribuíram com o INSS possuem direitos e podem entrar com pedido para solicitar seus benefícios.

De acordo com levantamento da Secretaria da Previdência, em 2017, foram concedidos pouco mais de 21 mil auxílios-doença previdenciários em decorrência do câncer de mama, número menor que em 2016, quando foram liberados cerca de 500 auxílios a mais. “A Constituição Federal assegura direitos às pessoas com todos os tipos de tumor maligno, inclusive na mama, para que ela possa ter mais qualidade de vida e, em alguns casos, até maior expectativa de vida”, explica Átila Abella, advogado especialista em previdência social e cofundador do site Previdenciarista (https://previdenciarista.com/), plataforma que auxilia advogados de todo o Brasil.

Durante o mês de Outubro, data criada para conscientização do combate à doença, o especialista reforça os 5 principais direitos do INSS para mulheres que estão na luta contra o câncer de mama.

Auxílio-doença

Para as pacientes impossibilitadas de trabalhar temporariamente, o auxílio-doença é um benefício assegurado. “O auxílio-doença é pago mensalmente à portadora do câncer desde que fique comprovada a impossibilidade de atuação profissional. Para os trabalhadores individuais, como profissionais liberais e empresários, a Previdência  Social pagará por todo o período incapacitante da doença, desde que o mesmo tenha requerido o benefício”, explica Átila.

Aposentadoria por invalidez 

Já para as pacientes que passam pela cirurgia de retirada das mamas e que ficam impossibilitadas de trabalhar de forma permanente, sem possibilidade de reabilitação, é possível solicitar a aposentadoria por invalidez.

“Para ter direito ao benefício, a segurada precisa ter iniciado as contribuições antes do diagnóstico da doença, e pode solicitar a aposentadoria por invalidez independentemente de ter feito as 12 contribuições pré-estabelecidas pelo INSS”, afirma o especialista.

Saque do FGTS e PIS

Portadores do câncer de mama, ou pessoas que tenham uma dependente com a doença, também podem resgatar a quantia disponível no FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço) e nas quotas do PIS/PASEP.

“Basta a segurada apresentar cartão do cidadão ou o número do PIS, a carteira de trabalho e um atestado médico válido por 30 dias, com o histórico da doença, estágio clínico atual e a cópia dos laudos. Para os casos de dependentes com a patologia, também é exigido um documento que confirme a ligação com a paciente”, explica Átila.

Auxílio acompanhante

Além dos benefícios acima, a segurada que necessita comprovadamente de um cuidador pode solicitar também o adicional (majoração) de sua aposentadoria para auxiliar no custeio do acompanhante, previsto na Lei nº 8.213/91 – um acréscimo vitalício de 25% no benefício pago pelo INSS.

Isenção de IR

A gravidade do câncer de mama também isenta, por lei, as seguradas  portadoras da doença de arcar com o Imposto de Renda, mesmo em caso de pacientes que já recebam benefícios da Previdência Social. “Como as pessoas com HIV/AIDS, cardiopatas graves e parkinsonianos, entre outros, elas têm direito a essa isenção, desde que recebam uma aposentadoria, pensão ou reforma”, finaliza a advogado.

Como entrar com o pedido do benefício? 

Para requerer todos os auxílios, a paciente precisará passar por um exame de perícia no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Por ser um processo burocrático e levar em consideração todas as tuações emocionais que cercam pessoa diagnosticada com câncer de mama, é indicado contar com a ajuda de um profissional.

Sobre o Previdenciarista

O Previdenciarista (https://previdenciarista.com/) é um site de consultoria especializado em Direito Previdenciário para advogados. Com mais de 2100 modelos de petições previdenciárias práticas e objetivas, usadas em casos reais e com clientes reais que ganharam processos, a plataforma está no ar desde 2013 e foi desenvolvida a partir dos mais de 15 anos de experiência dos seus fundadores; Renan Oliveira e Átila Abella. Em 2017 o site obteve mais de 2 milhões de visitas e cerca de 6 milhões de visualizações de páginas.

O Brasil enfrenta inflação médica no sistema privado

 Inflação médica: a grande vilã da saúde suplementar

Número é mais de três vezes maior que a inflação geral e pode causar, a curto e longo prazo, o fechamento de muitas operadoras de saúde.  Cadri Massuda*

 Luiz Augusto Carneiro*

Embora seja um problema mundial, o Brasil é um dos países que tem as maiores taxas de inflação médica. Um estudo recente do IESS – Instituto de Estudos de Saúde Suplementar mostrou que aqui a inflação médica, também chamada de VCMH – Variação dos custos médicos hospitalares, foi de 3,4 vezes o valor da inflação geral.

Na Argentina, país vizinho, esse número foi de 1,4. Países desenvolvidos, como a Dinamarca ou França, também apresentam uma variação excessiva nesse indicador: no primeiro foi de 3 vezes o valor da inflação base e, no segundo, de 2,5 vezes.

No Brasil, os custos relativos à internação são os mais expressivos, representando quase metade dos valores pagos pelas operadoras de saúde. O gasto com materiais é o segundo na lista.

Além de mostrar que se trata de um fenômeno mundial, o estudou trouxe as principais causas: envelhecimento populacional e aumento de doenças crônicas não transmissíveis; avanços tecnológicos, alto custo de medicamentos; o modelo de pagamento utilizado na saúde e a tendência de se utilizar em excesso os serviços.

No Brasil, pode-se adicionar ainda alguns fatores que fazem com que o problema seja ainda mais grave, como os diferentes surtos de doenças transmissíveis e a determinação do governo de aumento da cobertura mínima para novos procedimentos e medicamentos.

Além destes fatores, o rol de cobertura mínima em nosso país tem mais de 5 mil itens. A título de comparação, na Austrália esse número é de 500 e na África do Sul em torno de 300.

Dentre esses 5 mil itens, aproximadamente 600 são exames. Algumas doenças têm mais de 30 exames. É preciso que sejam feitos estudos analisando a real necessidade de todos esses procedimentos para verificar os efetivos e os que apenas aumentam o custo da saúde.

Na prática isso se torna inviável. Se o governo não aprovar um rol mais enxuto a viabilidade econômica de muitos planos de saúde estará cada vez mais comprometida.

Apesar deste extraordinário número de itens do rol, aprovado pela ANS e a sociedade constituída, o stema judiciário continua a considera-lo como uma lista mínima de cobertura, o que tem ocasionado frequentes liminares judiciais por exame ou procedimento não inclusos.

Estas atitudes de judicialização tem trazido um grande desconforto entre usuário e operadora de saúde, com encarecimento entre 2 a 3% do custo per capita no produto comercializado.

O envelhecimento da população também tem um impacto muito grande nos custos de saúde – e com o aumento da expectativa de vida esse número tende a continuar subindo. Até 2030, os planos de saúde contarão com um maior número de beneficiários idosos – estima-se que chegue a 51,6%.

Com isso, aumentarão também o número de consultas, exames e internações. Será outro aumento de custo que inchará as contas já bastante comprometida das operadoras.

Mudanças no modelo de pagamento; uma maior transparência em relação ao custo e qualidade dos materiais (que poderia causar um aumento da competição entre os distribuidores e uma consequente baixa de preços) e o uso de critérios bem definidos para incorporação de novos itens no rol mínimo de cobertura dos planos de saúde, tendo como base o custo benefício, são algumas das medidas que poderiam frear o aumento exponencial da inflação médica.

Além disso, faz-se necessária também uma urgente mudança na mentalidade. É preciso abandonar o modelo vigente, centrado no hospital e com foco na doença, para um modelo com foco em promoção à saúde e atenção primária.

Outra forma de otimizar o serviço é estimular uma prática que ainda é vista com ressalva pelos segurados que tem plano de saúde: médico de família ou médico gestor.

Esse profissional seria o responsável pelo atendimento e encaminhamento dos pacientes, somente quando necessário. Isso evitaria consultas, exames e até tratamentos desnecessários.

Caso não existam mudanças para tentar barrar o aumento nos custos, todos tendem a perder: usuários, operadoras de saúde e governo. Perdem usuários, que não conseguirão arcar com os custos; muitas operadoras não resistirão ao novo cenário e o governo precisará absorver ainda mais usuários no seu já bastante frágil sistema de saúde. Por isso, a única saída é unir esforços para garantir que a saúde suplementar possa ter vida longa e cada vez mais próspera no país.

*Luiz Augusto Carneiro é economista e superintendente executivo do IESS – Instituto de Estudos de Saúde Suplementar

*Cadri Massuda é presidente da Abramge-PR/SC – Associação Brasileira de Planos de Saúde

 

Animal raro e interessante, a lagarta luminosa vista no município de Ouro Preto

  Esta não é a luminosa

Nada como sugar dos canais Discovery Channel e Animal Planet conhecimentos relativos às maravilhas, que a natureza nos oferece, nas horas em que nada nos ocupa a não ser o nada fazer.

Em momentos de puro ócio – considerando que a passividade bem dosada é também importante na vida – saber e conhecer as mais recentes descobertas em campos como a biologia, por exemplo, pode ser interessante forma de descanso, sem que esteja completamente à toa.

Foi numa dessas sessões de conhecimento sobre comportamento animal, espécies estranhas e esquisitas, que dei retrocesso na memória, mergulhando na infância, lá pelos cinco ou seis anos de idade.

Antes de prosseguir com o relato, visualizo sorrisos zombeteiros dos que consideram impossível guardar lembranças de tão tenra idade.

Muitos não se lembram mesmo – há políticos, por exemplo, que não se lembram do que disseram no dia anterior -, mas isso não invalida o que outros contam sobre suas lembranças mais antigas, quando ainda nos primeiros contatos com o mundo exterior, especialmente se incluído o mundo animal..

Tenho lembranças esparsas de quando tinha apenas dois anos de vida.

Como já dito, tinha cinco ou seis anos, quando papai levou a família para morar nas imediações da antiga estação ferroviária, Dom Bosco.

Ele trabalhava na Enrico Guarneri, que explorava a jazida de mármore na localidade do Cúmbi, e, a mudança lhe facilitaria em muito, pois, para chegar ao trabalho levantava-se diariamente às três horas da manhã, para percorrer de dez a quatorze quilômetros, a pé, dependendo do ponto onde estava, pois era integrante da turma de manutenção de estradas da empresa.

Teve muita experiência desagradável, quando algum animal estranho lhe surgia à frente ou cruzava o caminho.

Fomos morar em rancho coberto de sapé, levantado algo em torno de duzentos metros afastado da margem direita da estrada entre Dom Bosco e Cúmbi.

Nessa época já garatujava as primeiras letras, na lousa portátil de ardósia, e lia as primeiras palavras na cartilha “a e i o u”, ensinado pela mamãe, que ainda assava biscoitos com formato de todas as letras do alfabeto, para que eu as assimilasse mais facilmente.

Eu participava também do trabalho de dar-lhes forma.

O rancho era bastante rudimentar, salvando-se apenas o espaço, mais que suficiente, e o quintal a perder de vista com direito a muita vida animal e regato de águas cristalinas.

Dentro de casa, de vez em quando, sentiam-se cócegas nas solas dos pés, provocadas por minhocuçus, que rompiam o mal batido chão de terra.

Certo dia, no lusco-fusco, ao anoitecer, vi no chão algo como argola brilhante. Imaginei tratar-se de broche, que a mamãe tivesse perdido e me abaixei para apanhá-lo.

Pequei e soltei imediatamente, pois era ser vivo, um animal; lagarta não maior que cinco centímetros.

Largada no chão, ela se pôs em movimento e então pude observar como era interessante a lagartinha no escuro. Em cada extremidade havia uma luz vermelha e, ao longo do corpo, nos dois lados, luzes brancas. Lembrava um trenzinho à noite.

No momento, minha consciência infantil desejou que aquilo fosse brinquedo, mas deixei o bichinho tomar seu rumo e nem vi onde o animal se meteu.

Curiosamente e ao contrário da tendência infantil de apregoar novidades e descobertas, também não falei com ninguém sobre aquela experiência.

Por pouco tempo o rancho foi nossa morada, pois, ao entrar o período chuvoso, constatou-se que a cobertura não impedia a água de entrar, alagar e transformar o chão em barro.

Voltamos para mesma casa de onde havíamos saído, em Cachoeira.

O segredo da lagarta luminosa continuou comigo por cerca de 65 anos e, somente então, em ocasiões oportunas, passei a comentar com algumas pessoas. Nunca ouvi de outrem, ou vi em livros, referências a essa espécie de lagarta.

Com o advento da internet, por diversas vezes, pesquisei e nada encontrei, até que, passado algum tempo, acessei referência registrada pelo biólogo Pedro Gomes, sobre ocorrência nas praias de Ilha Grande, região da Costa Verde, Angra dos Reis-RJ.

Entretanto, as lagartinhas da Ilha Grande seriam menores, medindo até um centímetro e meio e, segundo descrição do biólogo, a luz ao longo do corpo é verde claro.

Pedro Gomes acrescenta que, na qualidade de biólogo, pesquisou e não encontrou relato sobre a lagarta bicolor.

Se a lagarta ainda ocorre na região de Dom Bosco, mais de setenta anos depois de eu ter visto um exemplar, é mais um animal raríssimo a viver em território ouro-pretano, não muito longe do Vale do Tripui, onde ocorre o famoso peripatus acacioi.

Que crime cometi?

Sem saber do que sou acusado, nem dever por qualquer crime, há muito tempo encarcerado, solitário, longe da brisa que os livres embala, penso e pergunto, não por puro lamento: por que estou preso sem julgamento?

Para o sol me ser negado, nem da chuva poder beber, que crime cometi? Quero saber.

Vejo as nuvens, sinto o vento, ouço os sons da tempestade; quisera todo o furor arrostar ao lado de um amigo, ao invés de estar nesta cela, que me cedem como abrigo.

Queria escolher meu alimento, sugar das frutas o que me é vital, mas, por mim decidem o que faz bem e o que faz mal. Que crime cometi eu?

Sou do céu e sou da terra, galgo ramos e roço as águas, canto a vida e beijo as flores; que fiz contra quem me prende às dores?

Terei subornado, tentado levar vantagem, praticado deslealdade, deixado alguém à margem de negócio combinado?

Do semelhante algo útil não furtei, nem sua vida interrompi, mas autores de ações mais vis, livres são para mais fazer. Por que então o meu sofrer?

Da campina, antes verde, vem fumaça, da floresta ouço gritos: fogo assa e ferro corta, sem piedade! Terei eu praticado tamanha temeridade?

A cascata já não brilha e o regato não borbulha; se não lembranças do passado, mostram tudo menos água, sangue da Mãe-Terra, conspurcado! Serei eu autor de tal pecado?

Carência manipulada, verdade mascarada, uns contra outros, semelhantes são jogados pela força do mais TER; ganância, mentira e ódio, de mãos dadas matando o SER!

Vejo e não consigo o sentido compreender de tanto falar e nada fazer para conter o assalto ao direito, sem que haja antes o cumprimento do dever.

Tantos erros, tantas faltas, crimes vis irrefletidos, impunes ficam por todo o sempre, enquanto sou encarcerado sem saber de que culpado.

Se o verde sobre a terra se espalha, trazendo em parte a necessária alimentação, podem ver aí minha parcela de sutil cooperação; dos frutos como, e as sementes levo do ponto farto ao que carece de melhor vegetação.

Livro as folhas da larva hostil, no ar caço o que dela nasce, e o risco certo de doença ponho ao longe. De vida própria, que tem na água o elemento natural, povoo os cursos onde bebo, levando a célula inicial, mas nem sempre tenho a sorte de alcançar o meu intento; veneno/marca da leviandade e lixo/sobra do mal-usado apontam o crime que lamento. Será por isso que hoje sou detento?

Em busca do sonho da liberdade, risco o espaço, mas não levo aos ares, nas minhas asas, o fumo negro que envenena. Faz o mesmo quem me condena?

Na natureza, compondo o quadro de harmonia, minha plumagem em muitas cores dá o toque de alegria, mas, nesta cela, triste, fria, inconformado invejo as flores. Flores? Quem disse flores?

Só mesmo quem, do mundo apartado, não vê que já feneceram, ou presas estão em vaso apertado. Ao lado da natureza e em paz com as criaturas, do PAI homem seria parceiro, vivendo sem aperturas; mas, invertendo a ordem de tudo, como não cair em desgraça?

Por tudo isso e muito mais é que faltam pássaros no ar e sobram humanos na praça!…

Faces ocultas da mentira

Em relação à mentira, os dicionários dizem tratar-se de: “ato ou efeito de mentir; engano, falsidade, fraude”; “afirmação contrária à verdade a fim de induzir a erro”; “qualquer coisa feita na intenção de enganar ou transmitir falsa impressão”; “pensamento, opinião ou juízo falso”.

Também no inconsciente humano, a mentira se apresenta como produto perverso da mente, pois leva a falsos julgamentos, maus negócios, intrigas, brigas e mortes.

A religião a condena como pecado e, em certas circunstâncias, mentir pode ser a ruína do indivíduo, a nódoa que o destaca, negativamente, dentro da sociedade. 

Mas, nem sempre a mentira é o que dizem os dicionários, ponto de discórdia entre pessoas, ou algo condenável, pois outras facetas apresenta, até mesma sob a marca da piedade, quando se esconde a realidade dolorosa de pessoas idosas ou doentes.

Há a mentira humorística, destacando-se aí a do pescador, do caçador,

Man’s Face with a Halo

o “causo” mineiro, etc. Mas, a mentira do bem mais difundida está na literatura: romances de todos os gêneros, realçando-se a ficção científica, na antevisão de muitas conquistas científicas e tecnológicas, que se desdobram no teatro, no vídeo e no cinema.

Vista por este ângulo, a mentira é produto engenhoso da imaginação humana, que busca o futuro, que entretém, que alarga os horizontes, que une a espécie humana numa camaradagem multicolorida. Pode-se dizer que sem a mentira não existiria a literatura e a arte, de modo geral.

 Contudo, pesa mesmo é o seu lado negativo, perverso, cruel, demolidor, especialmente quando, à sombra do anonimato, comodidade sempre buscada pelos covardes.

E aqui, para gáudio dos que se ocupam desse nojento mister, entra uma característica muito humana: em se tratando da maledicência, a mentira é mais aceita que a verdade virtuosa.

É da natureza humana a tendência pelo negativo, pela destruição. Por essa razão jornais vendem mais, quando tratam de tragédias, de escândalos e toda miséria moral.

Pelo mesmo motivo, páginas policiais são mais lidas que editoriais. É assim que, se revelado fato positivo sobre uma pessoa, quem ouve costuma não dar crédito e vai em busca de informações que o comprovem; se o fato é negativo e depõe contra a mesma pessoa, a “novidade” é propagada, imediatamente, não dando chances à oitiva de versão contrária.

 A mentira, propagada dessa forma, é como fogo a consumir rastilho de pólvora: enquanto avança, parece inofensiva, mas no fim há a “explosão” e possível destruição da imagem da pessoa atingida.

E por muito que se arrependa e se faça em sentido contrário, a condição anterior nunca se restabelece, ficando a vítima marcada para sempre.

É bem conhecida a alegoria, segundo a qual, seria humanamente impossível, recolherem-se todas as penas de uma ave, lançadas ao vento do alto de uma torre. 

Ao contrário do que se pensa, na maioria das vezes, a maledicência, a calúnia gratuita, a maldade tem origem pela língua de pessoa ou pessoas do mesmo círculo, até bem próximas, consideradas amigas; detalhe mais chocante em todo o processo.

Por agirem mais direto sobre o alvo ou vítima, supostos inimigos fazem menos mal, mesmo porque contra eles está-se, preventivamente, preparado.

Em relação ao suposto amigo, está-se totalmente desarmado, sem saber que por trás das canjicas, à mostra, língua ferina pode estar pronta a atacar tão logo a vítima se afaste de sua presença.

Quanto engano quando, presunçosamente, se diz “somos amigos(as)” ou “fulano(a) é meu/minha amigo(a)”! Pela lógica e sem contrariar o princípio da sinceridade, o mais correto seria dizer “sou amigo(a) de fulano(a)”, se não há disposição para magoar ou ofender a mesma pessoa.

O verdadeiro amigo nem sempre é aquele do sorriso sempre aberto e lisonjeiro para os à sua volta, mas quase sempre é aquele que não nos poupa reprimendas em momentos certos e nos dá até um tapa na cara, se necessário

E tapa na cara, dado por desconhecido, faz menos mal à vítima que mentira ou calúnia feita por suposto amigo à mesma! 

O poder destruidor da mentira foi provado pelo nazismo, na Alemanha, quando foi usada, sistematicamente, contra o povo judeu, ocasionando, então, uma das maiores tragédias humanas.

Os judeus já eram vítimas de preconceito e, por isso, eram perseguidos, mas a campanha nazista, entregue por Hitler a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda, elevou as hostilidades antissemitas ao mais alto grau; convenceu a maior parte do povo alemão de que eles, os judeus, seriam a causa das mazelas da sociedade.

Resta saber por que algumas pessoas têm tendência à mentira danosa. Segundo estudiosos grande parte dos psicopatas não é violenta e nem entra em choque com a lei, mas todos eles são capazes e têm prazer em arruinar a vida do semelhante ao redor, seja debilitando-as, emocionalmente, ou arruinando suas finanças. Enquanto isso, posam de pessoas normais e distintas para as demais.

A vida, em Bento Rodrigues, deve continuar no espírito de sua comunidade.

O brinquedo ficou como testemunha da vida que, antes, ali prosperou.

Rápido como a lama, que se soltou do seu cercado, engolfou povoações, ceifando vidas humanas, avançou mais, ganhando distância e destroçando o que encontrava pela frente, incluindo-se vida de animais, o tempo passou e uma semana se foi desde a trágica tarde de cinco de novembro.

Não dá e, talvez, nunca dê para somar todos os prejuízos, em todos os sentidos, razão pela qual, antes da discussão em torno da culpa e responsabilidades, há que planejar a recuperação que, naturalmente, será na proporção inversa à velocidade da destruição.

Não que não se deva apurá-las e cobrá-las (culpa e responsabilidades), se houver de quem cobrar, mas vida humana é prioridade que, em ocasiões similares passadas, em pontos diversos do país, foi sufocada por veleidades e presunções na área da competência gerencial, o que sempre resulta em mais sofrimento, nas  baixas camadas sociais.

Há que reconhecer prioridade na atenção às vítimas, a começar das mais vulneráveis. De alguma forma e ainda que humilde, é pessoa humana a agente, a autora, a que produz.

A obra pode ser importante, mas não mais que seu autor e a vida. É lamentável  que se chorem as perdas do patrimônio, seja ele público ou privado, antes da atenção à pessoa que, conforme já dito, muito ainda se desgastará psicologicamente, como consequência do elo rompido no curso de sua vida, se compensação não lhe for dada  no mesmo nível.

Todo tipo de vida se perdeu, levada pela lama de roldão.

O indivíduo tem impressionante capacidade de se recuperar dos traumas e continuar sua vida, mas seu íntimo tem que encontrar apoio, também, no interior de seu semelhante, da mesma forma que o organismo físico debilitado se recupera por meio de sangue doado por outrem, seu semelhante.

Para a própria recuperação de perdas materiais é imprescindível que, primeiramente, se recupere a pessoa, que se dê força à vida.

Após as barragens rompidas, as ações em prol dos sobreviventes deveriam se conduzir, concomitantemente, nos níveis individual e, sobretudo, coletivo, considerando que comunidades rurais cultuam e valorizam, muito mais, a vida e a convivência solidária.

Todos esses aspectos deveriam ser levados em conta, no enfrentamento das consequências, que não são poucas, muitas a serem identificadas no transcorrer do processo de superação do trauma inicial.

Infelizmente, antecipando-se tais providências mais  as de cunho investigativo em torno das causas, adiantam-se instigadores inoportunos, prontos para semear o joio da dissensão, como se um impasse já houvesse entre a empresa mineradora e a parte vítima, que não se restringe ao local das barragens, englobando pessoas, patrimônios público e privado em dois estados da federação.

Demonizar a empresa em questão e o setor minerador não faz nada voltar ao estado de antes e não repõe o que se perdeu, não se recuperam vidas perdidas, bem como não conduz a qualquer discussão sensata em torno do que deve ser feito a partir de agora.

 Praticamente, nada escapou

Considere-se como delírio, sensacionalista e irresponsável, sugestão feita por profissional da mídia ao poder público, para que se     fechasse a mineradora.

Erros e falhas involuntárias existem onde está presente o homem, em qualquer atividade!

A empresa contribuiu e ainda pode contribuir para o desenvolvimento da região, ao incrementar a economia e proporcionar oportunidade de trabalho a grande número de pessoas.

No auge da comoção coletiva e primeiros contatos com a imprensa, morador de Bento Rodrigues lembrou, muito bem, que aquela localidade não se ergueu posterior, porém bem anterior à instalação das barragens.

Ora, isso é fato histórico incontestável, tendo o morador a ele aludido apenas para reforçar o que se comentava quanto à população local na condição de vítima.

Aproveitando o gancho, acrescente-se ao dito por ele que se a localização das barragens à montante da localidade foi um erro, isso deve ser compartilhado com o poder público, nas três esferas, que aprovou o projeto, autorizou sua execução, e, ao longo do tempo, não o fiscalizou adequadamente.

Em país, que se diz ou se quer organizado, não se admite, absolutamente, que empresa implante projeto de tal envergadura, pelos riscos oferecidos ao meio ambiente e à coletividade nos aspetos da saúde, segurança, patrimônio e economia, sem cuidadoso estudo e acompanhamento do poder público.

Ademais, é sabido que o setor minerador carece de legislação específica, atual e condizente com o direito público no estado moderno; mais uma razão para se dizer não à culpabilização unilateral, que a afoiteza ingênua ou de natureza político-ideológica tenta impor antes que se conheçam as verdadeiras causas da tragédia. NGB

Nota: Publicado, à época dos acontecimentos, em O LIBERAL/Ouro Preto.

De comida de pobre o ora pro nobis passa a prato de bacana

  Flor do ora pro nobis

Como o espinhento ora pro nobis passou de frango dos pobres a prato sofisticado e caro do bacana, ao lado do umbigo de banana, agora presente em restaurantes, além da ascensão do broto de bambu em conserva, o palmito dos pobres.

Em tempo de tantas novidades, trazidas pela tecnologia a avançar sobre o infinito, conceitos também são revistos; o que era ultrapassado e colocado de

 A planta ora pro nobis

lado se recicla; o antes nem considerado agora ganha valor e do que esteve no topo, às vezes, não resta pó. O ora pro nobis saltou para o topo da culinária!

Na cozinha e na mesa, por exemplo, dois exemplos de pratos que, no passado, não tinham lugar entre os ditos de paladar mais refinado. Era comida de pobre, entre os mais pobres!

De sua moita espinhenta, situada a um canto do quintal, a dona de casa catava as folhas suculentas e mais tenras do ora pro nobis (ou lebrobrô), então considerado o frango do pobre, para se preparar o guisado a ser saboreado com angu (não é pooolenta, não, cara-pálida).

Levemente escorregadio, de sabor que açula o apetite, o ora pro nobis provia os menos afortunados de nutrientes que, somente agora se reconhecem na planta.

Pois bem, o ora pro nobis se projetou na culinária, ganhou espaço no cardápio de restaurantes e é tema de festivais gastronômicos, sem deixar de ser o frango do pobre, se este cultivá-lo num canto de terra.

Em restaurantes de cidades turísticas mineiras, o ora pro nobis é prato de destaque e caro, atingindo conceito bem diferente de cinquenta, sessenta anos atrás.

Outro destaque, na gastronomia popular, embora com menor brilho, é o umbigo de banana. Outrora bastante consumido, ao lado do ora pro nobis, por pessoas de baixa renda, de repente, ele desapareceu do cardápio popular.

Algumas gerações não o conheceram como comida, até seu ressurgimento, há pouco tempo. E aqui relato fato que atesta o esquecimento daquele que fora iguaria tão apreciada.

Conhecido programa de televisão deveria fazer uma gravação em Cachoeira do Campo/Ouro Preto, focando a história local, seus costumes, cultura, etc.

Uma das solicitações da equipe é que fosse apontado um prato típico. Um dos contatos locais consultou o autor deste sobre o que poderia ser apontado como prato típico local. Sem pestanejar, foi-lhe dito: – umbigo de banana. Ao que ele reagiu estupefato: – mas isso se come?!…

Ele não acreditou e foi apresentada outra coisa que não tinha nada a ver com a culinária local. Pouco depois, coincidência ou não, o umbigo de banana voltou ao cardápio local, incluindo-se o de restaurantes, e, para quem não tem bananeira no quintal, o umbigo in natura passou a ser encontrado em supermercado.

Mas, esta abordagem ao ora pro nobis e ao umbigo de banana que, de pobres passaram a nobres, serve mais para assestar a mira sobre outro material, que também sai da penumbra e promete altos voos na aplicação industrial.

Uma das muitas espécies de bambu

E ele nada mais é que o prosaico bambu com suas cerca de mil e trezentas espécies. Entre humanos, com exceção da subespécie “urbanoide”, acredita-se que todos conhecem e, de alguma forma, já utilizaram ou lidaram com bambu, alguma vez, na vida.

Antes do muro, mais com a função de dificultar invasões, era o bambu que marcava limites, sem quebrar a política da boa vizinhança. E, às vezes, tais cercas eram verdadeiras obras de arte, tal era o capricho empregado por seus construtores: tamanho uniforme das peças de bambu, bem alinhadas mediante amarração perfeita.

Com o mesmo material e mesma técnica eram construídos galinheiros. Na área rural, ele servia de encanamento à água levada ao terreiro da residência; móveis rústicos eram com ele improvisados; pessoas mais habilidosas, de veia artística-musical, dele se valiam para a fabricação de flautas; e os forros das casas se fazia com a taquara, outra espécie de bambu, a mesma ainda hoje utilizada por artesãos de Lavras Novas/Ouro Preto, na fabricação de cestos, balaios e outros diversos objetos.

Não se pode esquecer das “bombas”, que se resumiam em gomos, previamente enchidos com água, arrolhados e colocados nas fogueiras das festas juninas. Os estouros eram festas à parte!

Mais que produto industrial, largamente anunciado na televisão, o bambu era, verdadeiramente, das mil e uma utilidades! Era e continua a ser, mais do que nunca, com a constatação de  sua dureza e resistência, o substituto ideal, ecologicamente correto, para a madeira, cuja utilização descontrolada pode fazer da terra um só deserto.

Pisos e placas de revestimento, bem como outros itens feitos de bambu, deverão substituir a madeira, no acabamento de construções, com grandes benefícios à natureza e à economia, de forma geral.

Cadeira feita de bambu

Ao contrário da madeira comercial, que leva, em média, trinta anos para se desenvolver, o bambu se desenvolve no prazo de três a seis anos e se recompõe, naturalmente, após o corte

Adaptável a diferentes climas, dispensa replantio e suas raízes, mediante verdadeiro emaranhado no subsolo, revertem a instabilidade de solos, o que recomenda seu plantio em áreas passíveis de escorregamento de rochas.

Como o início deste texto focou em itens da alimentação popular, registre-se que o bambu, além de todas estas e outras utilidades, também fornece alimento. Seu broto, rico em nutrientes, sob a forma de conserva se assemelha e pode ser considerado o palmito do pobre!

Aedes Aegipti, o mosquito mais importante do Brasil!

Em outro post, com o mesmo título acima, focalizou-se aqui o Aedes Aegipti, causador de uma entre as diversas tragédias vividas neste imenso território, dito descoberto pelos portugueses e habitado por sua descendência, à qual se misturaram gentes de todos os quadrantes do planeta.

 

Se existe mesmo diabo, para tentar, atormentar, provocar e atentar contra o ser humano, o Aedes aegypti deve ser o próprio, e, contra ele, pior estamos, pois não existe reza brava ou exorcismo que o afaste.

Até agora, embora anunciem vacina em fase de teste, o safardana entre os insetos tem ganhado em todas as frentes, atormentando a população, deixando as autoridades médicas de cabelo em pé contra as surpresas, que ainda poderão vir do vilão, e assanhando oportunistas de plantão, que ganham notoriedade com exposição na mídia.

 

Ao falar em surpresas, tão ao gosto do xexelento Aedes Aegipti, desde aquela abordagem, seu saco de maldades mostrou mais dalgumas, entre as quais a que pode provocar a síndrome de Guillain-Barré (pronuncia-se guiiã barrê), doença que, numa visão bem restrita, causa enfraquecimento dos músculos, seguido de paralisia progressiva dos membros, podendo provocar a morte, se não tratada imediatamente.

A todo o momento surgem novas informações sobre o que pode transmitir ou provocar o Aedes aegypti, de acordo com o vírus de que está infectado.

O danado do mosquito, em sua malvadeza, parece dotado de alguma inteligência ou dirigido por outrem, pois entre todas as doenças que já trouxe à humanidade, somente a febre a amarela foi vencida pela ciência, mediante vacina.

As demais, dengue, chikungunya e zika continuam sem solução e ainda aparecem intervenções do zika vírus a causar a microcefalia e a síndrome de Guillain-Barré.

Vencido na primeira investida, deve o Aedes Aegipti  ter pensado, se é que mosquito pensa: “esperem para ver o que vou lhes arrumar”. Pensou, passou à ação, e, agora estamos nós às voltas com essa coisa.

 

Pela extensão do mal, que avança pelo planeta, desde a maneira como o inseto se comporta, prolifera e causa moléstias, o combate ao Aedes Aegipti deve-se proceder de forma coletiva, em que nenhum indivíduo ou, pelo menos, nenhuma edícula ou morada pode ficar de fora.

Está de acordo com a lógica e é para essa ação que o público tem sido conclamado. Mas, ela é exequível na prática e suficiente para derrotar o mosquito? Duvida-se, e muito, disso!

 

Como parte da educação a ser ministrada com relação ao problema, sabendo-se ainda que seus resultados só virão a longuíssimo prazo, tudo bem, não se discute sua validade, mas a extensão dos estragos em andamento na saúde pública exige muito mais.

Ao longo dos anos, o Aedes Aegipti foi deixado muito à vontade pelos governos, que lhe deram pouca ou nenhuma atenção, ocupados que sempre estiveram com um ufanismo besta e assentado, nomeadamente, no desempenho futebolístico, ora decaído, e, no carnaval de palco da Sapucaí.

A dengue não foi introduzida assim como é e ataca as pessoas, atualmente. A princípio, a doença não apresentava características tão graves, destacando-se entre os sintomas o corpo mole, daí o nome dengue, que lhe foi dado.

Em lugar de estudos sérios sobre sua origem, desdobramentos e consequências, concentraram-se as atenções nos sintomas, então de mais fácil combate.

 

Sem encontrar maior resistência, no meio onde atuava o mosquito, a doença alcançou estágios mais perigosos, evoluindo até provocar morte. Ainda assim, praticamente nada se fez, para conter o avanço do mosquito em sua sanha contra a saúde pública.

Portanto, a situação atual é consequência direta da omissão governamental e não por culpa do povo, desamparado em todos os sentidos, em consequência da falta de políticas públicas sólidas e sérias, nas áreas da educação, da saúde e do desenvolvimento em geral.

Na verdade, o povo está perdido no meio das discussões politiqueiras, a envolver, praticamente, três dúzias de partidos, cujos ideais em proveito da nação não vão além de palavras vãs e promessas que não se cumprem, quando não a esconder intenções de desviar para o próprio quintal o que pertence à área pública.

 

Depois de tudo isso, não é com a pirotecnia oficial, tendo à frente a Grande Autoridade e seu círculo restrito, que erros serão corrigidos ou compensados, instalando-se então o bom senso, a competência, a boa administração dos recursos públicos, na solução de problemas que dizem respeito ao bem estar coletivo nacional.

Mais do que no oba-oba das ruas, o combate ao Aedes aegypti e às doenças por ele transmitidas deve ser travado no silêncio dos laboratórios, aos quais não se deveria regatear recursos que, para setores e causas de baixa prioridade, são liberados à mancheia.

Campanhas de vacina não têm obtido resultados esperados

 Campanhas de vacinação devem ser impositivas e punir as omissões

 *Luiz Carlos Borges da Silveira – médico e ex-ministro da Saúde

 

fonte: gazetadopovo.com.br

As notícias sobre campanhas de vacinação e seus resultados revelam sistematicamente que as metas não vêm sendo atingidas. Esse fato gera natural preocupação na saúde pública devido ao recrudescimento de doenças existentes e reaparecimento de outras que pareciam erradicadas.

Além disso, há o surgimento de doenças novas que igualmente merecem atenção em termos preventivos. Até alguns tipos de gripes têm registrados casos fatais, segundo recentes informações. Dados oficiais revelam baixa cobertura nas regiões; no Sudeste, que apresenta o melhor desempenho registrado, não mais do que 77% do público-alvo foram cobertos.

Sem dúvida, há uma espécie de conspiração contra a mobilização pela saúde pública. Inacreditavelmente, há pessoas e grupos com ideias anti-vacinação que pelas redes sociais disseminam conceitos estapafúrdios que vão de crenças religiosas a posições ideológicas.

Esses grupos criam mitos e boatos, como sobre a imunização contra a gripe, de que a vacina faz com que a pessoa fique gripada, quando na verdade ela previne infecções e pode salvar muitas vidas. Esta realidade tem feito que os médicos se mostrem vigilantes e dediquem mais tempo para o convencimento sobre a importância da imunização preventiva.

A vacinação é o meio de enfrentar o problema e isso depende de campanhas sociais, chamamento e efetivas ações. Se as campanhas não estão produzindo os resultados esperados devem ser revistas e reestudadas para se saber onde estão as falhas.

Ultimamente, foram deflagradas campanhas contra poliomielite, sarampo, febre amarela, dengue, influenza, entre outras, com baixo nível de imunização, o que é preocupante. No final da semana passada ocorreu o chamado dia D de vacinação contra sarampo e poliomielite. O Ministério da Saúde informou que a cobertura ficou em torno de 40% do público-alvo e a mobilização foi estendida até o final do mês.

Essa dificuldade de resposta positiva não é problema atual, mas deve ser enfrentado com criatividade e rigor. Quando assumi o Ministério da Saúde, em 1987, ainda havia casos de poliomielite, principalmente no Nordeste. A população se mostrava refratária ao chamamento para comparecer aos postos de saúde.

Foi necessário desenvolver uma campanha maciça, até o Exército colaborou indo às casas para vacinar a população e as metas foram cumpridas. Mas era preciso estimular a vacinação em todo o país. Então, o Ministério promoveu concurso nacional para criar um ícone, um personagem que influenciasse principalmente crianças.

Surgiu a figura do “Zé Gotinha”, até hoje mantida, mas ultimamente muito pouco utilizada. Na época, o Brasil se tornou modelo em vacinação e a pólio foi erradicada. Em dezembro de 1987 assinei a portaria criando a figura do “Zé Gotinha”.

Atualmente a poliomielite é ameaça constante e somente pode ser barrada com imunização. De acordo com dados oficiais há risco de retorno da doença e que mais de 300 cidades estão abaixo da meta preconizada para vacinação, o que levará à formação de bolsões de pessoas não vacinadas, possibilitando, assim, a reintrodução do poli vírus e do sarampo.

O Ministério da Saúde reconhece que há dificuldade em cumprir as metas e foi feito novo alerta para a gravidade da situação. Na sequência, campanhas foram realizadas sem modificação do quadro.

Tenho notado que as campanhas acabam prorrogadas, por não alcançarem as metas previstas, há casos em que até sobram vacinas em alguns municípios. Parece que há desinteresse da população, das famílias, e as doenças vão se alastrando. Entendo que se campanhas educativas e de conscientização não estão surtindo efeito desejado, que sejam obrigatórias.

Há que se buscar formas e meios para isso e estabelecer punição de pais e responsáveis que se mostrarem desinteressados ou omissos, algo como suspensão de benefícios sociais ou mesmo multa pecuniária. Não será nenhuma arbitrariedade, pois se trata de saúde pública, do bem-estar da população.

Para outras situações que colocam em risco especialmente crianças, como em educação e questões sociais, há instrumentos legais para chamar à responsabilidade e até punições previstas. Por que não adotar salvaguardas semelhantes quando se refere à saúde física? Somente a possibilidade de punição já seria suficiente para inibir eventuais omissões de responsáveis.

Não é admissível que doença que se supunha erradicada reapareça e que as endêmicas sigam a crescer, fazendo vítimas, causando preocupação e a passividade continue.

Os riscos são evidentes. A possibilidade de algumas doenças graves que já haviam sido eliminadas no Brasil voltarem a atingir a população é uma realidade preocupante. Diante da ameaça do retorno do sarampo e da poliomielite, que podem ser prevenidas a partir da vacinação, os dados de cobertura vacinal no País se mostram abaixo da meta. É evidente a importância de manter a vacinação em dia para evitar essas doenças e suas sequelas.

Enfermidade não é apenas quadro patológico que afeta a população, contamina também a produção laboral e onera o sistema de saúde pública. A vacina é a melhor forma para evitar o retorno de doenças eliminadas e para atacar as que estão assediando a população. É na saúde que mais vale a máxima de que é melhor prevenir do que remediar. Imunização vacinal é o caminho preventivo – todavia, com seriedade, responsabilidade e se necessário com rígida obrigatoriedade.