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Campanhas de vacina não têm obtido resultados esperados

 Campanhas de vacinação devem ser impositivas e punir as omissões

 *Luiz Carlos Borges da Silveira – médico e ex-ministro da Saúde

 

fonte: gazetadopovo.com.br

As notícias sobre campanhas de vacinação e seus resultados revelam sistematicamente que as metas não vêm sendo atingidas. Esse fato gera natural preocupação na saúde pública devido ao recrudescimento de doenças existentes e reaparecimento de outras que pareciam erradicadas.

Além disso, há o surgimento de doenças novas que igualmente merecem atenção em termos preventivos. Até alguns tipos de gripes têm registrados casos fatais, segundo recentes informações. Dados oficiais revelam baixa cobertura nas regiões; no Sudeste, que apresenta o melhor desempenho registrado, não mais do que 77% do público-alvo foram cobertos.

Sem dúvida, há uma espécie de conspiração contra a mobilização pela saúde pública. Inacreditavelmente, há pessoas e grupos com ideias anti-vacinação que pelas redes sociais disseminam conceitos estapafúrdios que vão de crenças religiosas a posições ideológicas.

Esses grupos criam mitos e boatos, como sobre a imunização contra a gripe, de que a vacina faz com que a pessoa fique gripada, quando na verdade ela previne infecções e pode salvar muitas vidas. Esta realidade tem feito que os médicos se mostrem vigilantes e dediquem mais tempo para o convencimento sobre a importância da imunização preventiva.

A vacinação é o meio de enfrentar o problema e isso depende de campanhas sociais, chamamento e efetivas ações. Se as campanhas não estão produzindo os resultados esperados devem ser revistas e reestudadas para se saber onde estão as falhas.

Ultimamente, foram deflagradas campanhas contra poliomielite, sarampo, febre amarela, dengue, influenza, entre outras, com baixo nível de imunização, o que é preocupante. No final da semana passada ocorreu o chamado dia D de vacinação contra sarampo e poliomielite. O Ministério da Saúde informou que a cobertura ficou em torno de 40% do público-alvo e a mobilização foi estendida até o final do mês.

Essa dificuldade de resposta positiva não é problema atual, mas deve ser enfrentado com criatividade e rigor. Quando assumi o Ministério da Saúde, em 1987, ainda havia casos de poliomielite, principalmente no Nordeste. A população se mostrava refratária ao chamamento para comparecer aos postos de saúde.

Foi necessário desenvolver uma campanha maciça, até o Exército colaborou indo às casas para vacinar a população e as metas foram cumpridas. Mas era preciso estimular a vacinação em todo o país. Então, o Ministério promoveu concurso nacional para criar um ícone, um personagem que influenciasse principalmente crianças.

Surgiu a figura do “Zé Gotinha”, até hoje mantida, mas ultimamente muito pouco utilizada. Na época, o Brasil se tornou modelo em vacinação e a pólio foi erradicada. Em dezembro de 1987 assinei a portaria criando a figura do “Zé Gotinha”.

Atualmente a poliomielite é ameaça constante e somente pode ser barrada com imunização. De acordo com dados oficiais há risco de retorno da doença e que mais de 300 cidades estão abaixo da meta preconizada para vacinação, o que levará à formação de bolsões de pessoas não vacinadas, possibilitando, assim, a reintrodução do poli vírus e do sarampo.

O Ministério da Saúde reconhece que há dificuldade em cumprir as metas e foi feito novo alerta para a gravidade da situação. Na sequência, campanhas foram realizadas sem modificação do quadro.

Tenho notado que as campanhas acabam prorrogadas, por não alcançarem as metas previstas, há casos em que até sobram vacinas em alguns municípios. Parece que há desinteresse da população, das famílias, e as doenças vão se alastrando. Entendo que se campanhas educativas e de conscientização não estão surtindo efeito desejado, que sejam obrigatórias.

Há que se buscar formas e meios para isso e estabelecer punição de pais e responsáveis que se mostrarem desinteressados ou omissos, algo como suspensão de benefícios sociais ou mesmo multa pecuniária. Não será nenhuma arbitrariedade, pois se trata de saúde pública, do bem-estar da população.

Para outras situações que colocam em risco especialmente crianças, como em educação e questões sociais, há instrumentos legais para chamar à responsabilidade e até punições previstas. Por que não adotar salvaguardas semelhantes quando se refere à saúde física? Somente a possibilidade de punição já seria suficiente para inibir eventuais omissões de responsáveis.

Não é admissível que doença que se supunha erradicada reapareça e que as endêmicas sigam a crescer, fazendo vítimas, causando preocupação e a passividade continue.

Os riscos são evidentes. A possibilidade de algumas doenças graves que já haviam sido eliminadas no Brasil voltarem a atingir a população é uma realidade preocupante. Diante da ameaça do retorno do sarampo e da poliomielite, que podem ser prevenidas a partir da vacinação, os dados de cobertura vacinal no País se mostram abaixo da meta. É evidente a importância de manter a vacinação em dia para evitar essas doenças e suas sequelas.

Enfermidade não é apenas quadro patológico que afeta a população, contamina também a produção laboral e onera o sistema de saúde pública. A vacina é a melhor forma para evitar o retorno de doenças eliminadas e para atacar as que estão assediando a população. É na saúde que mais vale a máxima de que é melhor prevenir do que remediar. Imunização vacinal é o caminho preventivo – todavia, com seriedade, responsabilidade e se necessário com rígida obrigatoriedade.

Você investiria em um país com alta criminalidade?

Você investiria em um país com alta criminalidade?
Marco Antônio Barbosa**

Cada brasileiro paga anualmente R$1,8 mil em média para sustentar a luta contra a violência. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI) são 365 bilhões ao ano no total, que equivale a 5,5% do PIB do país.

Este valor é mais alto do que o arrecadado com os setores de construção (5,2%) ou agronegócio (5,3%).

Os dados da CNI também apontam que o setor industrial gasta mais em segurança do que em ciência e desenvolvimento.

No ano passado, foram gastos cerca de R$ 30 bilhões em segurança, enquanto, em pesquisa, foram gastos R$ 12,5 bilhões, de acordo com os últimos dados disponíveis do IBGE.

A pergunta que fica é: você investiria o seu dinheiro em um país que gasta tudo isso com segurança?

Lembrando que investir não quer dizer sanar o problema e, muito menos, gastar da maneira correta. O Atlas da Violência de 2018 – divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública – mostra exatamente isso.

Mesmo com estes gastos, seguimos batendo recordes de criminalidade. Em 2016, foram 62.517 homicídios. São sete homicídios por hora no país.

O Índice Nacional de Homicídios instituído pelo Portal G1, que acompanha mensalmente as ocorrências de crimes violentos, mostra que 21.305 pessoas foram mortas nos cinco primeiros meses de 2018.

Faço outra pergunta: você traria sua família para trabalhar neste país, sabendo dessas estatísticas?

A segurança afeta diretamente a crise. Se a violência traz gastos, as empresas desistem de investir e perdemos vagas de empregos.

A consequência disso é que o crime aparece novamente como a única saída para quem não tem como se sustentar. O ciclo é vicioso e cada vez mais perigoso.

É preciso manter o investimento sim, mas de forma ordenada. Um planejamento claro e unificado para todo o Brasil, identificando as principais causas da criminalidade para atacá-las de forma assertiva.

Fortalecer as políticas públicas para as famílias de baixa renda como educação, moradia, transporte, saúde também impactam diretamente no combate à criminalidade.

Prover dignidade as pessoas e alternativas de crescimento são os grandes vácuos que o Estado deixa e onde se enraíza o crime organizado.

Mas como isso afeta diretamente as indústrias que querem investir aqui?

Os custos com segurança, somados à logística e impostos, encarecem a produção. Diminuindo este valor, aumenta a produtividade e diminui o custo que chega para a população que, com isso, consome mais. As empresas, então, abrem mais empregos e o ciclo vira positivo.

Se você fosse um empresário estrangeiro, investiria em um país com baixa criminalidade?  A resposta com certeza seria, sim. Este seria o cenário perfeito. Esta seria a pergunta que gostaria de começar um artigo falando sobre o Brasil.

 

** Marco Antônio Barbosa

 especialista em segurança e diretor da CAME do Brasil. Possui mestrado em administração de empresas, MBA em finanças e diversas pós-graduações nas áreas de marketing e negócios.

 

Política Nacional de Resíduos Sólidos Urbanos não se cumpre

Política Nacional de Resíduos Sólidos Urbanos completa 8 anos, mas menos da metade dos municípios tem destinação adequada

Passaram-se oito anos desde a criação da Política Nacional de Resíduos Sólidos Urbanos, mas, apesar da obrigatoriedade da sua aplicação, pouco tem sido feito pelos administradores públicos em todo o Brasil.

Além de promover ações compartilhadas entre o poder público, a sociedade e o terceiro setor, esta legislação incentiva práticas de logística reversa e, acima de tudo, a destinação adequada.

Imagem: www.freeimages.co.uk

Por lei, por exemplo, todos os lixões a céu aberto deveriam ter sido eliminados desde 2014, o que não ocorreu até hoje.

O cenário nacional é preocupante, ou seja, muito lixo que não é lixo acaba misturado ao lixo comum.

Os rejeitos, que poderiam ser destinados corretamente por meio da reciclagem ou de processos reversos, acumulam-se na beira dos rios, entupindo galerias pluviais, em baías, no mar e, muitas vezes, são engolidos por animais, que acabam ficando doentes ou morrem.

 

Imagem: www.freeimages.co.uk

Esta Política foi criada para melhorar os processos de destinação final dos rejeitos, o que traria um ganho considerável da melhoria da qualidade de vida local e do meio ambiente como um todo.

Apesar do avanço da legislação, ainda há um grande caminho a ser percorrido, que vai desde a conscientização sobre o lixo que cada cidadão gera, até as formas mais eficientes de separação. Reciclamos menos de 4% de todo o lixo gerado.

Muitas pessoas têm dificuldade ou falta de conhecimento sobre a forma de separação adequada.

Se cada um fizesse a sua parte, com certeza ajudaríamos os municípios a atingir o mínimo do que a Lei em vigor há 8 anos exigiria.

O que se deve fazer é incentivar a educação ambiental tanto nas escolas quanto na comunidade, ensinando a população a fazer o seu dever de casa no pleno exercício de cidadania. Em relação aos grandes geradores de lixo, falta ainda uma consciência ambiental, ou seja, muitas práticas acabam sendo justificadas por foça da lei. Não há por parte do poder público uma cobrança necessária. Quando ocorre, não é levada a sério.

Precisamos de uma grande mobilização social, exigindo o cumprimento da Lei e, em especial, gerando um efeito multiplicador positivo, que toque desde o grande gerador de rejeitos até o cidadão comum, dentro do seu ambiente e do seu entorno.

Autor: Rodrigo Berté

Diretor da Escola Superior de Saúde, Biociência, Meio Ambiente e Humanidades do Centro Universitário Internacional Uninter.