O prazer de uma viagem, ainda que salpicada de inconveniências

O prazer de uma viagem, ainda que salpicada de inconveniências
Deixe seu voto

Um dos prazeres que tenho na vida é viagem, curta ou longa, por qualquer meio de transporte, desde que não cavalo ou veículo de duas rodas. O fato é que viagem me proporciona satisfação, higiene mental e chego a me recuperar de pequenos males físicos, tal o grau de relaxamento a que me entrego enquanto me desloco.

Devido a isso já tive experiências curiosas, até desagradáveis, sem me irritar tanto quanto em outras circunstâncias, que acabam enriquecendo a coleção de fatos dignos de registro.

Certa ocasião fiz uma, na qual sucessão de incidentes quase transformou prazer em amargura, sem falar na perda do sentido da própria viagem.

Ao contrário do que acontece normalmente, quando tenho a opção de escolha entre janela e corredor, desta vez só havia poltronas vagas ao lado do corredor e, lá fui eu, sujeito às inconveniências daquela posição.

No outro lado, na mesma direção, jovem senhora e um par de crianças, o menino entre oito e dez anos e a menina de uns quatro ou cinco, ocuparam as duas poltronas.

Imediatamente, minha imaginação entrou em processo de previsão em relação à presença tão próxima dos dois fedelhos.

É lógico e natural que crianças sejam inquietas, palradoras, e inconvenientes de alguma maneira. Mas, para minha surpresa, eram dois anjos – se verdade que todos os anjos são tranquilos – em comportamento.

Tão logo o ônibus se pôs em movimento, procuraram se aninhar junto à mãe para dormir. Em compensação, a mulher não parava quieta.

No desvelo maternal com os pimpolhos, ela se levantava a todo o momento para acomodá-los melhor, para apanhar algo que caíra, e, chegou a ficar em pé por algum tempo enquanto mirava os filhotes. Daquelas contínuas manobras sobravam batidas de sua traseira na minha cara!

Ainda bem que não era nenhuma jamanta, podendo-se dizer que estava mais para Fiorino. E, felizmente, o escapamento se mostrava sob controle, sem nenhuma emissão de poluentes. Se não, o padecimento teria sido maior!

Embora não durma em viagem, mantenho os olhos fechados, para não tê-los demasiadamente cansados. E quando os abri a certa altura da madrugada para conferir a hora no relógio digital do veículo, vi a imagem totalmente borrada.

Algumas luzes ao lado da rodovia se me mostraram da mesma forma. Instintivamente, levei a mão aos olhos e percebi estar sem os óculos. Tateei sobre o colo, no chão ao lado da poltrona, entre a minha poltrona e a do passageiro ao lado e, nada!

Por ironia do destino, a viagem tinha como objetivo exame oftalmológico para renovação da CNH (“carlta” para os paulistas), que é de outro estado.

Pensei em pedir parada ao motorista, mas o bom senso falou mais alto, pois meus companheiros de viagem não mereciam ser perturbados. Decidi que pediria ajuda a eles quando se fizesse luz no interior do ônibus na parada regular, que não tardaria.

E, quando o veículo já se preparava para sair da rodovia, imaginei que eles poderiam ter deslizado pelo corpo até os pés, considerando-se que a poltrona estava reclinada ao máximo.

Tateei mais uma vez, à frente, e os encontrei enganchados e intactos no suporte do descanso para os pés. Foi um alívio. Não cheguei a perturbar ninguém e estava recuperado o sentido da viagem.

Em quase cinquenta anos de uso, eles nunca haviam se desprendido, acidentalmente, da minha cara em viagem. Como isso acontecera?

Lembrei-me então da mulher. Numa de suas “bundadas” na minha cara, os óculos escorregaram! Não a recrimino, porque o zelo e ternura com que cuidava dos filhos compensavam qualquer sacrifício!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *