Preconceito: atire a primeira pedra quem não o tiver!

 

Uma das facetas mais combatidas do comportamento humano é o preconceito. De raça, religião, nacionalidade, nível sócio-econômico ou qualquer outro rótulo, o preconceito separa, divide e subtrai da sociedade humana muito do que ele poderia ser como fraternidade.

Mas, ele é fator inerente à condição humana. Cada indivíduo, desde que consciente de seu lugar dentro da espécie, é marcado com uma quota de preconceito. Mentiroso é aquele que diz não ter preconceitos!

Quem não tem preconceitos, que atire a primeira pedra! Todos nós os temos, em maior ou menor escala. O que nos diferencia uns dos outros é a maneira de lidar com o fator.

Temos preconceito até sem explicação lógica, se não analisarmos o caso à luz dos fenômenos do subconsciente. Quem nunca teve uma antipatia gratuita, sem explicação, em relação a uma pessoa, apenas conhecida na rua, às vezes sem sequer saber-lhe o nome?

Costumamos até afirmar em círculos mais íntimos: “não vou com a cara daquele sujeito”. Se nos cobram o porquê, não sabemos responder. E assim como no plano individual, no coletivo o preconceito se faz presente também.

O processo da industrialização, que levou grande parte da população do campo e das pequenas cidades para as metrópoles, criou dois tipos de cidadãos na relação com os demais: o que não deu certo e foi morar na favela e o que se deu bem ou quase bem e se instalou em prédios de apartamentos, em condomínios de luxo, etc.

Da favela e do favelado nem é preciso dizer que, em termos coletivos, são os maiores alvos do preconceito urbano. Segundo mentalidade corrente é na favela que mora o bandido, e, cidadão que revela ser morador de favela já tem contra si noventa por cento de desconfiança em relação a outro residente em bairro urbanizado.

O combate ao tráfico de drogas centraliza-se nas favelas, mas os verdadeiros donos do tráfico nem são conhecidos, ou se finge que não são. Residem em locais acima de qualquer suspeita e frequentam as altas rodas.

Mas o preconceito do qual queremos nos ocupar no momento prende-se a diferenças nos modos de vida entre as grandes e as pequenas cidades, sendo estas vistas muitas vezes com desdém por parte da população encaixotada nos altos prédios de apartamentos.

Com o tempo e a aproximação proporcionada pelos modernos meios de comunicação, os rótulos “caipira”, “atrasado”, “do interior”, aplicados ao habitante de pequenas cidades vão ficando para trás, mas, em certo aspecto, o preconceito continua a rebaixá-la na avaliação feita pelo cidadão do asfalto e ar condicionado.

Com a queda da qualidade de vida nos grandes centros, o retomo às pequenas e médias cidades consta do projeto de muitos, mas um “grilinho” não deixa de cantar em seus ouvidos: “a vida em cidade pequena é

Bandido se esconde na prática do crime e escondido da sociedade pelo pelo sistema

mais tranquila; pena é que haja tanta fofoca”.

A assertiva não deixa de ser verdadeira, porém encerra injustiça contra as pequenas comunidades. O encaixotado em apartamento gaba-se de nem conhecer seu vizinho ao lado.

E isso também é verdade. Mas, daí dizer que fofoca é próprio da vila, da periferia e da cidade pequena, ele esconde o próprio rabo e pisa no alheio.

Também nos prédios de apartamento existem fofocas. E, pior, sem que se saibam pelo menos os nomes das vítimas. No lugar dos nomes, números dos respectivos apartamentos são sujeitos dos comentários maldosos que circulam nos corredores e elevadores.

As mesmas fofocas, ouvidas em outros locais, circulam nos prédio mais ou menos assim: “aquela sirigaita do 506 vai se casar, o que provoca a pergunta “contra quem?”; ou, “aquele coitado do 304 ainda não sentiu o que lhe nasce na testa”; ou ainda, “já viu o carro novo da viúva do 602? A pensão do falecido mal dá para ela comer. Tem um mistério ali”; “o morador do 708 parece estar envolvido em algo sério, pois dizem que o oficial de Justiça já esteve lá várias vezes”. Felizmente, aqui o ouvinte da fofoca rebate com a observação: “o tal oficial de Justiça é sobrinho da mulher que mora ali”.

Não adianta insistir em diferenças desse tipo. Os mesmos defeitos “de origem” unem ou separam os homens, não importa a condição social ou o local escolhido para morar.

 

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