Que crime cometi?

Que crime cometi?
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Sem saber do que sou acusado, nem dever por qualquer crime, há muito tempo encarcerado, solitário, longe da brisa que os livres embala, penso e pergunto, não por puro lamento: por que estou preso sem julgamento?

Para o sol me ser negado, nem da chuva poder beber, que crime cometi? Quero saber.

Vejo as nuvens, sinto o vento, ouço os sons da tempestade; quisera todo o furor arrostar ao lado de um amigo, ao invés de estar nesta cela, que me cedem como abrigo.

Queria escolher meu alimento, sugar das frutas o que me é vital, mas, por mim decidem o que faz bem e o que faz mal. Que crime cometi eu?

Sou do céu e sou da terra, galgo ramos e roço as águas, canto a vida e beijo as flores; que fiz contra quem me prende às dores?

Terei subornado, tentado levar vantagem, praticado deslealdade, deixado alguém à margem de negócio combinado?

Do semelhante algo útil não furtei, nem sua vida interrompi, mas autores de ações mais vis, livres são para mais fazer. Por que então o meu sofrer?

Da campina, antes verde, vem fumaça, da floresta ouço gritos: fogo assa e ferro corta, sem piedade! Terei eu praticado tamanha temeridade?

A cascata já não brilha e o regato não borbulha; se não lembranças do passado, mostram tudo menos água, sangue da Mãe-Terra, conspurcado! Serei eu autor de tal pecado?

Carência manipulada, verdade mascarada, uns contra outros, semelhantes são jogados pela força do mais TER; ganância, mentira e ódio, de mãos dadas matando o SER!

Vejo e não consigo o sentido compreender de tanto falar e nada fazer para conter o assalto ao direito, sem que haja antes o cumprimento do dever.

Tantos erros, tantas faltas, crimes vis irrefletidos, impunes ficam por todo o sempre, enquanto sou encarcerado sem saber de que culpado.

Se o verde sobre a terra se espalha, trazendo em parte a necessária alimentação, podem ver aí minha parcela de sutil cooperação; dos frutos como, e as sementes levo do ponto farto ao que carece de melhor vegetação.

Livro as folhas da larva hostil, no ar caço o que dela nasce, e o risco certo de doença ponho ao longe. De vida própria, que tem na água o elemento natural, povoo os cursos onde bebo, levando a célula inicial, mas nem sempre tenho a sorte de alcançar o meu intento; veneno/marca da leviandade e lixo/sobra do mal-usado apontam o crime que lamento. Será por isso que hoje sou detento?

Em busca do sonho da liberdade, risco o espaço, mas não levo aos ares, nas minhas asas, o fumo negro que envenena. Faz o mesmo quem me condena?

Na natureza, compondo o quadro de harmonia, minha plumagem em muitas cores dá o toque de alegria, mas, nesta cela, triste, fria, inconformado invejo as flores. Flores? Quem disse flores?

Só mesmo quem, do mundo apartado, não vê que já feneceram, ou presas estão em vaso apertado. Ao lado da natureza e em paz com as criaturas, do PAI homem seria parceiro, vivendo sem aperturas; mas, invertendo a ordem de tudo, como não cair em desgraça?

Por tudo isso e muito mais é que faltam pássaros no ar e sobram humanos na praça!…

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