Trapalhada e indelicadeza tupiniquim diante dos lusitanos

Trapalhada tupiniquim

A mais popular diversão, para quem prefere o sofá antes de se

Flag of Brazil

recolher para o sono de cada noite, é a telenovela, ainda que muitos torçam o nariz, preconceituosamente, rotulando-a como coisa de mulher.

Na verdade, alguns homens criticam mas não dispensam olhadas furtivas.

A telenovela é parte da cultura brasileira, praticamente desde que descoberto o meio eletrônico de transmissão do som. Com o rádio, o povo se ligou às radionovelas.

Aqui, “o povo” é modo de dizer, pois o rádio foi, durante muitos anos, privilégio dos mais aquinhoados, não sendo acessível a todos, como hoje o são quaisquer das tralhas eletrônicas lançadas no mercado.

O proprietário do rádio receptor era obrigado a tê-lo registrado nos Correios e Telégrafos e pagar uma taxa, anualmente. Veja-se que era um aparelho importante; no início, um grande trambolho, geralmente instalado na sala, reduzindo-se de tamanho com o passar dos anos.

Quem o possuía recebia, à noite, pessoas de seu círculo, para ouvir programas radiofônicos, especialmente as novelas. Dentre estas, creio que a de maior sucesso foi “O Direito de Nascer”, ainda nos anos cinquenta, que acabou por empurrar o rádio para a popularização, de fato.

Quando veio a televisão e, com ela, a telenovela, esta ganhou um público já formado pelo rádio. Como já dito, a grande maioria já ouviu ou viu e vê novela. Se assim não fosse, os canais de televisão não a explorariam a peso de ouro no mercado publicitário.

Outro dado a comprovar sua popularidade é o fato de, praticamente, todos os canais abertos exibirem novelas. Falem o que quiserem contra elas, mas as telenovelas continuam sendo o grande filão da televisão.

Não se trata aqui da qualidade do produto, do bem ou do mal que pode causar, porém do poder que tem a telenovela de influenciar! Também eu já fui noveleiro e deixei de ser, unicamente, por ser viciante. Não gosto que algo me prenda – e a telenovela enclausura enquanto dura – por isso deixei de segui-las.

Não tenho nenhum preconceito contra elas, mesmo porque para quem escreve, produz textos, ainda que não do gênero, a telenovela pode ser um exercício, um campo de exploração ou fonte de inspiração. Eu acompanhava a trama e, ao mesmo tempo, divertia-me em paralelo, procurando antever falas dos personagens, cenas e situações do enredo.

Para mim, o único problema é a dependência, levando o seguidor à desatenção para com outros assuntos, até negligência em relação a questões mais sérias.

O que leva à abordagem desse assunto, no momento, é estreia da novela “Ouro Verde”, produção portuguesa levada ao ar, em Portugal, em 2017 e que, agora, chega ao Brasil.  Segundo a publicidade em torno do atual lançamento, além de contar com a participação de atores brasileiros, tem cenas rodadas no Brasil, para onde o personagem emigrou, depois de escapar de um massacre que vitimou toda sua família. Mas, não se cuida de contar a história, pois, para isso, a novela já está no Brasil; basta segui-la.

Entretanto, há um detalhe, na apresentação brasileira da novela, que merece comentário. Como envolve atores portugueses e brasileiros, entendeu a direção do canal transmissor que, no Brasil, não se ouvirá o “sotaque” português, porque se cuidou de unificar as falas de cá e de lá, mediante dublagem da fala lusitana.

Ao mencionar sotaque português já se feriu a suscetibilidade lusitana. Os portugueses alegam, com razão, que eles não falam com sotaque; outros povos lusófonos, sim, especialmente o povo brasileiro. Os portugueses são os pais da língua e é em Portugal que se fala a língua resultante da original. Demais países de fala portuguesa são os que falam diferente, ou seja, com sotaque.

Contudo, na minha opinião, a falta mais grave está na própria dublagem, sob a argumentação de assim a novela ser compreendida pelos brasileiros. Não se sabe se há algum acordo nesses casos, mas de qualquer forma creio ser uma descortesia para com o povo português essa dublagem, pois a estrutura da língua é uma só. O que há é diferença de pronúncia e do significado de alguns vocábulos, nada mais; e o povo brasileiro não é burro!

A prevalecer esse argumento, as novelas gravadas em São Paulo deveriam ser dubladas para que cada região brasileira, onde o modo de falar e parte do vocabulário diferem dos de São Paulo.

A dublagem da fala lusitana, além da descortesia com os pais da língua, tira dos brasileiros a oportunidade de apreciar aquele modo de falar e de corrigir certos vícios, como o gerundismo, essa praga introduzida pelos serviços de telemarketing.   Ainda está em tempo de a emissora corrigir esse tremendo equívoco. Se corrigido, talvez até eu siga a “Ouro Verde”

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